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Há 15 anos atrás… Ok… 25 anos

Lembro-me como se fosse hoje. Há 15 anos atrás… Ok… 25 anos. Mas o texto foi escrito há quase 10 anos, então estou perdoado pela imprecisão temporal.

Memória UBQ

Este texto foi publicado originalmente em 02/07/2009. Muita coisa aconteceu desde então. Alguns fatos da época pode parecer estranhos por conta do decurso de tempo entre a publicação original e o tempo atual.

Assim é a memória UBQ… resgatando sua história; trazendo opinião, informação e entretenimento para você. Uma maneira interessante de rever os fatos e avaliar como a informação ‘envelheceu’.

Há muito tempo atrás… a hiperinflação

Em 01/07/1994 fui à uma agência bancária e troquei meus CR$ 34.800,00 (Cruzeiros Reais) por R$ 12,65. Na época pensei: “Lá vem mais uma mudança de moeda e mais um corte de três zeros”. Isto foi num tempo em que o preço de um produto era “X” e amanhã “X+Y”. E às vezes “X+Y+Z” ainda no mesmo dia.

O fenômeno chama-se hiperinflação. Tempos difíceis. Quando garotinho eu recebia uma mesada de Cr$ 500,00 do meu pai. Lembro que a quantia era suficiente para comprar um gibi do Pato Donald, uma caçulinha (uma espécie de guaraná antartica em miniatura) e ainda sobra Cr$ 50,00. A moeda chamava-se Cruzeiro.

Do Cruzeiro ao Cruzado

Por volta de de 1986, minha mesada tinha aumentado bastante: eu ganhava cerca de Cr$ 5.000,00. Mas o então José Sarney, que já tinha um vasto bigode e uma cara de pau enorme, era o Presidente desta esculhambação chamada Brasil, mudou a moeda.

Presidente José Sarney cria o "Plano Cruzado" e muda o nome da moeda nacional
Presidente José Sarney cria o “Plano Cruzado” e muda o nome da moeda nacional

Naquela época eu não estava nem aí para política, mas lembrando daquele tempo, era muita cara de pau dele vir à TV e conclamar os “Fiscais do Sarney”.

Os 'fiscais do Sarney' eram implacáveis na luta pela controle de preços
Os ‘fiscais do Sarney’ eram implacáveis na luta pela controle de preços

Agora o dinheiro no Brasil chamava-se Cruzado e cortaram três zeros. Assim, Cz$ 1,00 = Cr$ 1.000,00. Eu lembro de ter ficado bravo com ele. Afinal, ele diminuiu minha mesada.

Os primeiros meses foram diferentes, o preço estável, sem grandes mudanças de preço. Mas aí tudo começou de novo. Minha mesada começou a aumentar novamente e de tempos surgiam notas mais graúdas. Para se ter uma idéia, as primeiras notas (1986) foram de Cz$ 10,00, Cz$ 50,00 e Cz$ 100,00; além de moedas com valor em centavos até Cz$ 1,00. Em 1989 as notas já tinham valores de Cz$ 10.000,00 e Cz$ 5.000,00. Voltavámos à inflação.

Um novo plano… uma nova moeda: o Cruzado Novo

Por conta do fracasso do Plano Cruzado, o desastrado presidente bigodudo lançou um novo plano econômico: o Plano Verão. Novo corte nos zeros, nova moeda: Cruzado Novo (NCz$).

As notas mais graúdas de Cruzados foram carimbadas e novas notas foram impressas. Nesta época eu já entendia um pouco mais sobre o corte de zeros e sendo assim, não fiquei bravo quando minha mesa foi reduzida.

Um novo plano... um novo corte de zeros... rotina no governo do José Ribamar
Um novo plano… um novo corte de zeros… rotina no governo do José Ribamar

Novo plano, moeda e confisco da poupança

Em 1989, Fernando Collor de Mello ganhou a eleição para presidente, assumiu e então, mais um pacote. Com direito ao confisco da poupança e mudança da moeda. Voltamos ao Cruzeiro. Voltou a moeda e voltou a inflação. As primeiras notas com valores na casa da centena em pouco mais de um ano eram troco para comprar balas na padaria.

O Plano Collor não cortou zeros, mas mudou o nome da moeda novamente para Cruzeiro. E confiscou a poupança também
O Plano Collor não cortou zeros, mas mudou o nome da moeda novamente para Cruzeiro. E confiscou a poupança também

As coisas não saíram como a equipe econômica comandada pela ministra Zélia Cardoso de Mello esperavam. O tal ‘Plano Collor’ (que oficialmente deveria ser chamado de ‘Plano Brasil Novo’) renomeou a moeda (novamente para Cruzeiro) congelou preços, mas não foi capaz de controlar os gastos do governo. Como resultado, a inflação saiu do controle mais uma vez.

Uma inovação no 'Plano Collor'... não cortamos os zeros!!!
Uma inovação no ‘Plano Collor’… não cortamos os zeros!!!

E acredite… ainda tiveram a cara de pau de lançar um ‘Plano Collor 2’, com novo congelamento de preços. O resultado, todos sabemos.

Se a inflação sobe… cortar zeros é parte da solução

Para ajudar no cenário econômico, Fernando Collor foi pego com a ‘boca na botija’ em denúncias de corrupção. Ele até tentou renunciar ao cargo de presidente para escapar do processo, mas a manobra não surtiu efeito e com isso ele foi sofreu impeachment e posteriormente foi cassado.

O Brasil vivia novamente um cenário de Inflação galopante e com isso uma nova mudança de moeda… Desta vez, no governo “tapa-mandato” de Itamar Franco.

Assim, Em 1993, novo corte de zeros e novo nome: Cruzeiro Real (CR$).

Itamar Franco conseguiu a proeza de ter 3 moedas vigentes em seu mandato
Itamar Franco conseguiu a proeza de ter 3 moedas vigentes em seu mandato

Puxa, se eu tivesse 08 anos novamente (minha idade em 1984) e ainda estivéssemos nos tempos do Cruzeiro, eu seria bilionário. Afinal, considerando apenas o valor de face, temos que CR$ 1,00 = Cr$ 1.000.000,00.

Teria comprado muitos gibis e tomado muitas caçulinhas…

Da URV ao Plano Real

Aí, em 1994 veio o Fernando Henrique Cardoso, ainda como Ministro da Fazenda propondo uma tal de “Unidade Real de Valor” que era um índice atualizável de acordo com o dólar. E aí, finalmente, a inflação parou. Bom, pelo menos diminuiu bastante.

E aí chegamos ao dia 01 de Julho daquele ano. O dia em que fui mais uma vez trocar o meu dinheiro. E nos últimos quinze anos, foi a última vez. Doze reais e sessenta e cinco centavos…

Notas do editor em 2019

Desde 1994 a moeda não mudou… mas isso não quer dizer que a economia vai bem. Em quase 25 anos de Plano Real, encontramos alguma estabilidade e houve um controle mais adequado da inflação.

Apesar dos avanços, muita coisa ainda precisa mudar… reformas urgentes na previdência e no regime tributário são importantes para que daqui a 25 anos possamos fazer um novo balanço do real.

Dos presidentes citados no texto, Sarney ainda ficou muito tempo na política, exercendo mandatos de Senador pelo estado do Amapá, quando se retirou da política em 2014.

Fernando Collor foi cassado e ficou 8 anos afastado de cargos públicos, tentou ser candidato a prefeito de São Paulo, mas foi em seu estado natal (Alagoas) que ele retornou à vida pública. Foi derrotado por duas vezes quando candidatou-se à governador do estado, mas foi eleito por duas vezes Senador da República, exercendo mandato até 2022.

Itamar Franco foi governador de Minas Gerais e posteriormente Senador da República pelo mesmo estado. Faleceu em 2011, vítima de complicações de Leucemia.

Fernando Henrique exerceu dois mandatos como Presidente da República e depois passou a funcionar como um conselheiro do PSDB, sem disputar mais nenhum cargo público.

Curiosidades do Real

  • Apesar da inflação controlada, o Real desvalorizou e muito… considerando a inflação do período (1994 até 2019), o mesmo real de 1994 teria poder de compra equivalente a apenas R$ 0,17. (Sim… menos de vinte centavos)
  • Uma esfiha de carne no Habib’s custava R$ 0,11. Com cinco reais você seria uma espécie de ‘rei do parquinho’ na lanchonete árabe.
  • Com R$ 20,00 você enchia o tanque de um Gol GL 1.8 com gasolina e ainda sobrava algum troco.
  • Por falar em carro, um Gol 1000 0KM (o chamado ‘carro popular’ custava na época R$ 7.243,00
  • O salário mínimo em 01/07/1994 era de R$ 64,79
  • Um trabalhador que ganhava apenas o mínimo precisaria de 112 meses de salário (quase 10 anos) para comprar um carro popular zero quilometro.

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