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Hungria


O mundo não conheceu a seleção da Hungria dois anos antes, nas Olimpíadas de Helsinque, onde o selecionado levou a medalha de ouro. Nada surpreendente: a Hungria era time de elite na época, tendo disputado a final da Copa de 38, e tinha além de jogadores de alto nível, propostas de jogo históricas. Foi a Hungria de 54 que inovou com os atletas não mantendo posições fixas, inspirando a seleção holandesa vinte anos depois. A seleção húngara de 70, por sua vez, trouxe nova bossa ao apresentar os toques de bola rápidos e eficientes desde a saída de sua área até a meta adversária. Este estilo inspirou o tiki taka do Barcelona, que atingiu seu ápice com Guardiola treinando.

A Hungria foi enfim, uma grande escola que teve em Puskas sua maior estrela, pronta para brilhar no seu esplendor na Copa da Suíça em 54. E brilhou, só não conseguiu vencer a Copa, o que contribuiu para tornar o certame jogado na Suíça como um dos mais esquisitos de todos os tempos. Para quem acha que foi uma copa xôxa, saibam que ali se registrou a maior media de gols por partida (5,38) das Copas – teve um monte de goleada. Foi a primeira Copa transmitida pela televisão, foi onde estreamos a camisa amarela, criada para espantar a urucubaca do Maracanazzo, onde jogamos de camisa branca. O termo “Seleção Canarinho” surgiu nesta Copa, criado pelo jornalista Geraldo José de Almeida.

Mas foi sem dúvida uma Copa esquisita, a começar do regulamento, onde havia quatro grupos com dois cabeças de chave em cada, que não jogariam entre si. Assim, num grupo de quatro seleções, cada uma jogaria dois e não três jogos na primeira fase. Entendeu? Nem o Brasil entendeu. No segundo jogo, com a Iugoslávia, os dois se classificariam com um empate. Os iugoslavos chegaram a fazer gestos nos minutos finais do jogo pedindo para o Brasil maneirar pois o placar de 1×1 classificava os dois. Ainda assim, finda a partida com este resultado, teve brazuca saindo de campo chorando por achar que o time fora desclassificado. Só fomos entender que continuávamos no páreo na chegada ao hotel.

Nas quartas pegaríamos o bicho-papão da Copa, justamente a Hungria. Perdemos até honrosamente, por 4×2, placar desonrado por um murro de Nilton Santos que nocauteou um húngaro, assim como nosso zagueiro Tozzi chutou a perna de outro adversário como se uma bola fosse. O clima já estava quente quando na saída do campo, finda a partida, um membro da nossa Comissão Técnica arremessou uma garrafa de água na direção da delegação húngara. Já seria chato se a garrafa fosse como hoje, de plástico, mas era de vidro. Já seria deprimente se acertasse um adversário, mas acertou o compatriota Pinheiro, abrindo um talho em sua testa. Pinheiro, num ato que teve lá sua coerência já que não viu de onde veio a garrafa partiu para cima dos húngaros e deu-se a batalha campal.

Voltamos da Suíça envergonhados, assim como o técnico escocês Andy Beattie, que após sua Escócia levar uma sapecada de 7×0 do Uruguai tornou-se o único técnico a se demitir durante uma Copa.

Bem, a Hungria, que já havia vencido a Alemanha (naquele tempo chamada de “Alemanha Ocidental”) na primeira fase por 8×3, vencia a mesma Alemanha na final por 2×0. O jogo foi devidamente virado por uma Alemanha devidamente dopada (o que foi confirmado por muitos alemães depois) e a Hungria se despedia da Suíça com um vice campeonato, com a maior média de gols de uma seleção em Copas (5,2 por partida) e deixando como legado, além da movimentação tática dos atletas, também o aquecimento físico antes dos jogos.

E Puskas? Antes de ser imortalizado dando nome ao troféu que premia o gol mais bonito do ano, criado em 2006, três anos após sua morte, ele jogou na seleção da Espanha, naquele tempo era permitido. Consta que quando chegou ao Real Madrid, aos 31 anos e em sobrepeso, para fazer a histórica dupla com a argentino Di Stefano, ele perguntou ao então presidente do clube, Santiago Bernabeu, se a sua obesidade atrapalharia o time. Bernabeu não deixou por menos: “Nosso time sua obesidade não atrapalha. Ela vai atrapalhar você.”

Copa do Mundo de 1954

  • Sede: Suíça
  • Período: 16/06 a 04/07/1954
  • Campeão: Alemanha Ocidental; vice: Hungria
  • Colocação do Brasil: 6° lugar

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Publicado em:Crônicas,Entretenimento,Uma Copa Qualquer

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