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Jongbloed

Alguma conjunção astral fez com que na Holanda em 1974 pudessem se ajuntar jogadores dispostos a seguir um esquema que no fundo conseguia unir a disciplina tática com uma anarquia quase análoga ao futebol de rua. Planejado por Rinus Michels e liderados por um fora de série da envergadura de Cruyff, aquela seleção caminhava para a Copa coesa e prometia. Bem, “coesa” talvez fosse um exagero. Cruyff era tão craque quanto chato e se indispunha facilmente com qualquer um. Dos três goleiros convocados, ele brigou com o titular, Beveren, que logo depois se contundiu e aproveitou para sair do time. Os reservas não inspiravam confiança em Rinus Michels. Foi quando o próprio Cruyff se lembrou de um goleiro que vira jogar 15 anos antes num pequeno clube de Amsterdã, chamado AFC.

Jan Jongbloed (pronuncia-se, eu acho, ‘Iôngblâd’) começara sem pretensão jogando na linha. Praticava também vôlei e rugby. Estes outros desenvolveram nele a impulsão nos saltos e a desenvoltura para sair jogando. Alguém disse que isto faria dele um goleiro com grande potencial. E assim, aos vinte anos, por volta de 1960, ele era goleiro reserva da seleção da Holanda. Teve chance num jogo contra a Dinamarca, onde a Holanda levou um vareio de 4×1. Ele não teve culpa dos gols mas irritou a comissão técnica de então por abusar de sair jogando, como um zagueiro.

Cruyff lembrou dele e desta característica a Rinus Michels, que nem se empolgou tanto por ter imaginado que Jongbloed já estivesse aposentado. Mas não estava. Ainda jogava no pequeno, mas simpático AFC – uma espécie de Juventus da Mooca, só que holandês. Michels topou o risco e assim convocou um goleiro em fim de carreira que não vestia a camisa da seleção de seu país havia 15 anos.

A estreia de Jongbloed foi no último amistoso antes da Copa da Alemanha, uma vitória de 4×1 contra a Argentina. Ele começou tímido. Mas logo percebeu a dinâmica daquele time, onde zagueiro atacava, centroavante vinha para a defesa, meio campo marcava forte, e todos pareciam rodar em campo. O velho goleiro deve ter pensado “tá pra mim” e fez o que mais gostava: desembestou a sair da grande área jogando, o que fez brilhar os olhos de Rinus Michels. Finalmente ele tinha completado seu Carrossel.

A Copa da Alemanha Ocidental em 74 foi a primeira a ter transmissão em cores para 70 países. Também foi a estreia dos números dos jogadores nos calções e onde saiu o primeiro cartão vermelho, para o chileno Caszely, que por conta deste cartão foi impedido de jogar futebol em seu país pelo então presidente Augusto Pinochet – cuja reputação já conhecemos. Foi também a primeira Copa onde foi detectado um caso de dopping, no haitiano Ernst Jean Joseph, que por conta disso foi publicamente moído de pancada pela comissão técnica de sua seleção.

Eram outros tempos. Tão outros tempos que os mascotes da Copa foram dois menininhos, Tip e Tap. Ninguém admitia mas era uma mensagem ao mundo da paz entre as Alemanhas Ocidental e Oriental que inclusive caíram no mesmo grupo naquela Copa. A Alemanha Ocidental soltou a zebra e perdeu de 1×0, e com isso evitava um entrave diplomático e, melhor ainda , fugia do Brasil na próxima fase. Brasil que não era mais o mesmo. Sem Pelé, e com nove dos vinte e dois jogadores de 70, e destes nove, seis eram reservas na campanha do Tri, restou a Zagalo um esquema retranqueiro que garantiu o quarto lugar. Perdemos da Holanda na semifinal e da Polônia na decisão do terceiro lugar. Ok, fizemos o possível.

Na final, contra a Alemanha Ocidental, a Holanda provaria seu valor, mas a Alemanha era fortíssima e jogava em casa. Jongbloed entrou com a sua já consagrada camisa amarela – na época os goleiros jogavam com camisas escuras – com o número 8 às costas, já que a Holanda numerava seus atletas por ordem alfabética. Mas resolveu à última hora jogar sem luvas, até hoje ninguém sabe a razão. A Holanda saiu na frente, mas a Alemanha teve um pênalti a seu favor. O alemão Breitner, é verdade, mandou um tirambaço no canto, mas Jongbloed se manteve de pé no centro do gol, estático. Depois diria que seria hipocrisia escolher o canto. Há quem diga também que ele não fez muita força para defender o segundo gol alemão, feito por Muller, mas aí já é implicância.


Jongbloed fez uma boa Copa, tanto que foi convidado pelos poderosos Ajax e Liverpool, mesmo com aquela atuação na Final. Não quis ir porque ficavam longe do lago onde pescava – ele disse isso mesmo. O que houve com ele foi na verdade o que pode ter havido com os outros que vestiam laranja naquele Mundial: queriam experimentar o êxtase do “Futebol Total” proposto pelo seu genial técnico. Talvez se tivessem um pouco mais de juízo teriam ganho a Copa. Mas não teriam maravilhado o mundo.

Copa do Mundo de 1974

  • País Sede: Alemanha Ocidental
  • Período: 13/06 a 07/07/1974
  • Campeão: Alemanha Ocidental; Vice: Holanda
  • Colocação do Brasil: 4º lugar

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Publicado em:Crônicas,Entretenimento,Uma Copa Qualquer

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