Demorei a escrever porque preferi esperar o resultado final. Mesmo assim, os fatos continuaram surgindo, com uma gravidade que não tem graça nenhuma. E cabe a pergunta: a que ponto chegamos?
Resultado paradoxal?
A direita venceu o Legislativo com folga: cerca de 276 cadeiras na Câmara (53,8%, margem para formar maioria simples), 15 governadores e, no Senado, 28 senadores mais à direita (somando eleitos agora e quem já ocupa cadeira). No primeiro turno, Flávio Bolsonaro liderou com 47,03% contra 45,16% de Lula, sem atingir a maioria. Até Lula, que esperava vencer ali, foi pego de surpresa.
Veio então o segundo turno, e uma virada inédita: Lula venceu com 51,79% contra 48,21%. Como é possível?

Como explicar a virada?
Os números apontam três fatores: maior comparecimento, menos votos brancos e nulos e maior engajamento dos eleitores de Lula, que cresceu em quase todos os estados e virou o resultado em Minas Gerais. Eleição proporcional e disputa majoritária entre dois candidatos seguem lógicas diferentes, e o “paradoxo” é menor do que parece.
Quanto à campanha, os debates tiveram mais ofensa que proposta, dos dois lados. Na Globo, Flávio ironizou Lula com os “nove dedos” e, depois da reação do presidente, pediu desculpas. Lula respondeu chamando-o de “miliciano” e, nas considerações finais, pediu desculpas pelo tom elevado do debate.
A “sacanagem” da prorrogação
Foi assim que Flávio chamou a prorrogação do horário de votação por duas horas, determinada pelo ministro Zanin, decisão que, segundo ele, saiu às 17h01, com muitas seções já encerrando. Vale lembrar que as duas campanhas pediram a prorrogação (a de Lula por problemas de transporte, a de Flávio por causa do clima), que o TSE demorou a decidir e que Zanin depois esclareceu que valia só para as seções ainda abertas.
Minha opinião: Zanin errou. A decisão veio tarde e sem critério claro, e isso criou desequilíbrio entre os eleitores. Mas os números pesam mais: foram cerca de 35 mil votos após as 17h, e relatos indicam que só cerca de 5 mil podem ser atribuídos à prorrogação. Lula venceu por mais de 4,4 milhões. Não há evidência de que a prorrogação tenha alterado o resultado.
O terceiro turno
Derrotado, Flávio disse que não reconhecia o resultado e pediria a anulação. Naquela noite, Moraes mandou que ele entregasse o passaporte e o proibiu de deixar o país. Na segunda, Flávio disse que entregaria e que nunca pensou em sair. Mas não apresentou os documentos no prazo e foi para os Estados Unidos. Não há mandado de prisão, então ele não é formalmente foragido. Na minha opinião, deixou o país em afronta à decisão judicial.

Dos EUA, divulgou uma carta na qual se autoproclamou “verdadeiro presidente eleito” e prometeu liderar a oposição de lá. Depois, trocou o título por “líder do Brasil”. Contestou a legitimidade da eleição, acusou o STF de perseguição e, sem apresentar provas, levantou suspeitas sobre as urnas. Na versão atualizada, rebateu a ideia de que teria fugido.
A repercussão
O presidente do TSE disse ter “absoluta segurança” no processo. Segundo a Folha, ministros do TSE e do STF reconhecem erros ao lidar com a prorrogação, mas consideram a anulação drástica demais. A decisão pode ter sido falha; o resultado não está em dúvida.
Flávio ficou isolado. Até as 13h de segunda, 15 partidos haviam reconhecido a vitória de Lula, inclusive legendas que o apoiaram. O presidente do PL disse que ninguém aprovou a carta e que Jair Bolsonaro não sabia da viagem. Tarcísio defendeu respeito ao resultado das urnas. No campo jurídico, houve recuo: Flávio deixou de falar em anulação e passou a mirar a cassação da chapa Lula-Alckmin por abuso de poder.
Seria injusto olhar só para um lado. Deputados do PT pediram a Moraes a prisão preventiva de Flávio. Juristas avaliam que a saída do país poderia fundamentá-la, mas, por ora, nada foi decretado. E, segundo o blog de Valdo Cruz, aliados de Lula e ministros do STF criticaram a decisão de Moraes. Lá fora, Trump disse, sem provas, que a eleição “pareceu mais uma eleição fraudada”; Alckmin chamou a avaliação de “totalmente equivocada”.
Conclusão
Voltando à pergunta do início: A que ponto chegamos? Bom… o paradoxo é menos misterioso do que parecia. O mesmo país que ampliou a bancada do PL deu mais de 4 milhões de votos de vantagem a Lula, que agora terá de governar com um Congresso hostil à sua agenda.
Três coisas me parecem importantes, independentemente de em quem você votou. Primeiro, contestar um resultado na Justiça é legítimo; alegar fraude sem provas, não. Segundo, as decisões que incendiaram o pós-eleição, a prorrogação e a medida contra Flávio, foram criticadas até por dentro do sistema, e a confiança nas instituições foi testada dos dois lados. Terceiro, a direita que venceu o Legislativo é mais plural do que o discurso do “terceiro turno” sugere, e resta saber quem vai liderá-la.
Ainda não sabemos o desfecho. Mas, a meu ver, o sistema, com seus erros, funcionou, e o maior risco já não é o resultado, é a desconfiança que ficou. E essa não se resolve com contagem de votos.
Post Scriptum
Ah sim… não poderia deixar de fazer uma nota de transparência… antes de me rotular como lulopetista ou como bolsonarista, vai o aviso: eu anulei o meu voto. Enquanto eleitor, nenhum deles parecia ser a melhor opção. Vamos torcer para que em 2030 tenhamos melhores opções, não é mesmo?