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Os meninos do Brasil

Em 1976 o escritor norte-americano Ira Levin publicou um romance chamado “Os meninos do Brasil”. Contava sobre um caçador de nazistas que recebe um telefonema de um brasileiro anônimo no qual descreve um programa secreto de clonagem, onde se buscou produzir um novo Hitler.

Este programa não era apenas de engenharia genética mas também de se repetir as condições onde o monstro nazista foi criado, por exemplo fazendo-o chegar aos 18 anos órfão de pai e mãe. Esta história foi filmada, sob direção de Franklin Schaffner, com Lawrence Olivier no papel do caçador de nazistas e Gregory Peck no papel do comandante do programa, ninguém menos que Josef Mengele, que no filme, produzido em 79, morava no Brasil.

Não se tinha ainda a informação de que Mengele REALMENTE morava no Brasil, até morrer em Bertioga. O Mossad chegou a dar um calor em Levin, autor do livro, que jurou de pés e mãos juntas que a referência ao Brasil foi para livrar a Argentina, que realmente foi o paradeiro de vários nazistas sumidos. Bem, se o Mossad engoliu essa, a gente também vai engolir, fazer o quê?

A novidade é que o UBQ descobriu uma movimentação secreta do Exército Brasileiro para resolver a entressafra interminável de craques do futebol pentacampeão do mundo. O projeto, secreto como devem ser essas coisas, também foi chamado de “Meninos do Brasil”. E produziria clones de alguns dos nossos outrora estrelados atletas e os submeteria às mesmas condições de criação de suas, digamos, matrizes.

Assim, em Quintino, subúrbio do Rio, nasceria um menino chamado Artur. Ele teria dois irmãos mais velhos que jogariam muito bem porém cujas carreiras teriam que ser prejudicadas por contusões, o que faria nascer no mais novo, tão franzino que receberia o apelido de “Galinho”, o desejo de jogar bola.

Perto dali, em outro bairro periférico, chamado Bento Ribeiro, nasceria outro clone, chamado Ronaldo, cuja engenharia, para além da dificuldade inerente à clonagem seria dificultada pois teria que ser um moleque feio à beça, zarolho e dentuço – por exigência do projeto. Mas esta experiência poderia ser replicada no Rio Grande do Sul, onde outro Ronaldo, também feioso e dentuço seria clonado.

Estes três projetos teriam sidos já aprovados pelo general comandante, quando chegou o quarto envelope. Era logisticamente mais difícil, pelas condições extra-clonagem. No chamado “projeto Edson”, o pai teria que ser clonado, pois era preciso que também jogasse futebol, e com uma categoria que inspirasse o filho para o resto da vida. Além disso, a família teria que morar em vários locais, começando em Três Corações, no interior de Minas, indo depois para Bauru e terminando em Santos.

Consta que o general, após ler o projeto, deu um murro na mesa, bradou que “delírios escalafobéticos também tem limites”, e que mesmo entre os clones existem os inclonáveis, até que, num rompante, ele suspendeu o Projeto.

A Comissão de Geneticistas do Exército até hoje discute se não bastariam os três primeiros envelopes, que já haviam sido aprovados pelo general, já que o custo de irritá-lo foi o de aumentar a fila de espera por mais uma conquista de Copa do Mundo. Um dos cientistas chegou a dizer, “bem feito, quem mandou a gente brincar de Deus?” No que outro respondeu, “mas Deus torce pela Canarinho, e vai determinar nascimentos de craques por este território imenso, de maneira a nos garantir o hexa.”.

Num arroubo de racionalismo, o geneticista líder, cientista inveterado, levantou a voz: “Como assim? Deus? Mas que conversa de gente tonta! Por isso estamos aqui estagnados. E de onde você tirou essa que ele torce pela Seleção?” O colega dele respondeu pleno de convicção: “Ué, um brasileiro torceria por quem?”

Publicado em:Crônicas,Entretenimento,Michelices,Uma Copa Qualquer

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