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Berzerk: o labirinto de robôs que marcou o Atari 2600

Todo gamer de uma certa geração guarda o nome de um cartucho na memória. O meu é Berzerk. Foi o jogo que acompanhou o meu primeiro videogame, um Atari 2600. Foi no ano de 1983 que eu ganhei de Natal o videogame que era sensação na época. Um presentão de Natal, aliás… estamos falando de um console que tinha sido lançado no Brasil há poucos meses, e portanto caríssimo.

Ok… Berzerk não é o jogo mais lembrado do Atari. Mas foi o meu primeiro jogo, e ele veio junto com o videogame, na caixa. Além disso, compramos o Math Gran Prix de forma avulsa, na mesma ocasião. Eu fui bem sortudo. Me empolguei com o “Gran Prix”, pensando se tratar de um jogo de corrida, mas não era bem isso. Quem sabe eu falo dele por aqui em outro momento.

Eu disse sortudo? Disse… porque, no mesmo dia em que o Atari chegou em casa, um amigo do meu irmão deu uma dica. Lá no bairro da Mooca, uma loja vendia cartuchos de Atari com preços mais em conta. Eu ainda não sabia, mas eram cartuchos piratas. Contudo, eu tinha 9 anos… então isso não me preocupava.

Assim, naquele mesmo dia, voltei para casa com Enduro e International Soccer. Berzerk e Math Gran Prix, que já estavam comigo, ganharam companhia logo no primeiro dia. É do Berzerk que vou falar hoje.

De onde veio Berzerk?

Berzerk é um jogo de labirinto e tiro lançado em novembro de 1980, para os fliperamas. A desenvolvedora e publicadora foi a Stern Electronics. Além disso, o game foi o primeiro desenvolvido internamente pela empresa.

A premissa é simples. Você controla um Humanoide preso em salas cheias de robôs. Eles se movem devagar, mas disparam contra você. O objetivo é atirar nas máquinas e escapar pelas saídas.

Berzerk nasceu como um jogo para arcade e teve ports para consoles
Berzerk nasceu como um jogo para arcade e teve ports para consoles

Há, porém, um detalhe que muda tudo. Se você demora demais, surge Evil Otto, um rosto sorridente que não pode ser destruído. Ele atravessa paredes e persegue o jogador sem descanso.

O jogo estreou na feira AMOA, em Chicago, entre 31 de outubro e 2 de novembro de 1980. Depois, chegou às casas de fliperama. De acordo com o livro They Create Worlds (Alexander Smith, 2020), foram vendidas cerca de 15 mil unidades, número considerado um sucesso para a Stern.

Alan McNeil e o processo de criação

O projeto nasceu das mãos do programador Alan McNeil. Antes da Stern, ele trabalhava na Dave Nutting Associates, onde fazia sequências e conversões. Cansado disso, pediu para criar um jogo original. A empresa recusou, alegando falta de experiência em design.

Em 1979, McNeil foi para a Stern. A promessa era clara: se resolvesse um problema técnico em uma placa de controle, poderia fazer o seu game. Assim, acabou cuidando sozinho de arte, gráficos, programação e depuração.

O primeiro protótipo foi influenciado por Chase, um jogo de computadores universitários. O nome veio da série de livros Berserker, de Fred Saberhagen, sobre máquinas de guerra que querem exterminar a vida biológica.

A fase de ajustes deu trabalho. Na primeira versão, os robôs eram tão rápidos que o jogador sobrevivia cerca de seis segundos por vida. McNeil queria partidas de aproximadamente três minutos para um iniciante. Por isso, mexeu na velocidade das máquinas e na quantidade de tiros. Além disso, criou uma lógica de geração das salas, para que os labirintos parecessem aleatórios.

Evil Otto e as vozes robóticas

Evil Otto surgiu para forçar o jogador a sair das salas. McNeil dizia detestar o rosto sorridente e a frase “tenha um bom dia”. O personagem, portanto, era uma ironia: o sorriso vinha acompanhado de ameaça. O nome homenageia Dave Otto, gerente de escritório que irritava os engenheiros.

Evil Otto... a carinha feliz e indestrutível
Evil Otto… a carinha feliz e indestrutível

As vozes sintetizadas nasceram de um acaso. Um vendedor visitou a empresa oferecendo um chip de fala, pensado originalmente para pessoas com deficiência visual. A voz soava robótica, e McNeil percebeu que isso combinava com o jogo. Assim, os robôs passaram a provocar o jogador com frases curtas. Berzerk foi um dos primeiros arcades a usar síntese de voz, depois de Stratovox, também de 1980.

A cor foi a última grande mudança. Antes, o jogo era em preto e branco, com tinta translúcida na tela para simular cores. Depois, os engenheiros criaram uma camada de vídeo colorida de quatro bits.

Do fliperama para a sala de casa

O sucesso levou o jogo aos consoles. Olha só:

  • Atari 2600: agosto de 1982, com conversão de Dan Hitchens
  • Vectrex: outubro de 1982
  • Atari 5200: fevereiro de 1984.
Atari 2600, Atari 5200 e Vectrex... port do Arcade para os consoles
Atari 2600, Atari 5200 e Vectrex… port do arcade para os consoles

McNeil não gostou das conversões. Para ele, os gráficos ficaram mais toscos que os do original. Segundo o próprio criador, a Stern vendeu os direitos de versão caseira à Atari por 4 milhões de dólares.

A imprensa da época, no entanto, foi generosa. Havia ceticismo antes do lançamento no 2600, principalmente após a recepção ruim do Pac-Man da Atari. Mesmo assim, as revistas elogiaram a conversão. A versão de 2600 ainda recebeu um Certificado de Mérito de “Melhor Videogame Solitário” no Arcade Awards de 1983, da revista Electronic Games. Em 2008, a Retro Gamer o apontou como o melhor jogo de “correr e atirar” do console.

O impacto na cultura gamer

Berzerk deixou marcas em vários níveis. Primeiro, foi um dos pioneiros no uso da voz sintetizada nos games. Segundo, combinou labirinto e tiro de um jeito pouco fofo, conforme foi observado pelo crítico Michael Blanchet. Por fim, criou um vilão memorável: GameSpy e IGN reconheceram Evil Otto entre os grandes vilões dos videogames. Em 1995, a revista Flux colocou o arcade na 55ª posição entre os 100 melhores jogos de todos os tempos.

A influência mais conhecida é Robotron: 2084 (1982). Eugene Jarvis, co-criador do jogo, notou que em Berzerk o jogador parava ao atirar, mas ainda podia mudar a direção do tiro. Dessa observação nasceu a ideia dos dois joysticks de Robotron. Os autores do livro Vintage Games também apontam Berzerk como inspiração não declarada de Castle Wolfenstein (1981). Além disso, o jogo teve clones, como Thief (1981).

Uma polêmica da época

Em abril de 1982, um jovem de 18 anos morreu de ataque cardíaco após bater o recorde de Berzerk em um fliperama de Illinois. A imprensa chegou a noticiar a hipótese de que o estresse do jogo teria contribuído. Segundo o vice-legista do caso, havia uma cicatriz com pelo menos duas semanas no coração do rapaz, e o estresse poderia ter sido um gatilho. McNeil negou boatos de outras mortes. Portanto, não há comprovação de que o jogo tenha causado o ocorrido.

Continuações e jogos inspirados

A sequência oficial foi Frenzy (1982), também de McNeil, feita com ideias que sobraram do original. Pouco depois, McNeil deixou a Stern. Ele morreu em 2017.

Depois de décadas, o jogo voltou. Veja os principais retornos:

  • Berzerk Voice Enhanced (2002): versão caseira de Mike Mika para o Atari 2600, com a voz digitalizada
  • Berzerk: Enhanced (2023): cartucho físico de Atari 2600 lançado pela Atari
  • Berzerk: Recharged (2023): novo jogo da Sneakybox, publicado pela Atari para PC e consoles
  • Atari 50 (conteúdo adicional de 2024): coletânea com a versão arcade, a do 5200 e as do 2600.

Em 2023, a Atari anunciou a compra dos direitos dos arcades Berzerk e Frenzy. Isso ajuda a explicar o fôlego recente da franquia.

Um clássico que ainda assusta

Berzerk envelheceu, é verdade. Mesmo assim, a tensão de ouvir os robôs e ver Evil Otto se aproximando continua funcionando. Eu odiava o Otto… quantas vezes – em vão – eu tentei matá-lo. Eu simplesmente não aceitava que não existisse uma maneira de acertá-lo. E naquela época não existia internet nem YouTube para buscarmos um gameplay com dicas e macetes.

Labirintos infindáveis, agilidade para acertar os robôs e evitar as paredes eletrificadas e muita sorte para fugir do Otto. Gastei muitas horas jogando Berzerk. Um conceito simples e divertido. Voltei a jogar quando comecei a pensar neste texto e ainda me diverti bastante… mesmo com o Otto.

Hoje em dia é possível jogar Berzerk por meio de emulação ou até mesmo estes consoles retrô lançados recentemente. Qual sua experiência com o jogo? Conta aí nos comentários!

Ficha técnica: Berzerk

  • Desenvolvedora: Stern Electronics
  • Publicadora: Stern Electronics
  • Designer e programador: Alan McNeil
  • Lançamento original (arcade): novembro de 1980
  • Conversões: Atari 2600 (agosto de 1982), Vectrex (outubro de 1982), Atari 5200 (fevereiro de 1984)
  • Gênero: labirinto e tiro (maze shooter)
  • Modos: um jogador e multiplayer
  • Sequência: Frenzy (1982)
  • Releituras recentes: Berzerk: Enhanced (2023) e Berzerk: Recharged (2023)

Fontes de consulta

  • Wikipédia, “Berzerk (video game)”: https://en.wikipedia.org/wiki/Berzerk_(video_game)
  • Referências citadas pela Wikipédia: Craig Grannell, “The Making of… Berzerk”, Retro Gamer nº 47 (2008); Alexander Smith, They Create Worlds (2020); Electronic Games, “1983 Arcade Awards” (janeiro de 1983); William Cassidy, GameSpy (2002); Michael Blanchet, Idaho Statesman (1983); Stephen Kiesling, Video Games (1982); Atari, comunicado de aquisição de Berzerk e Frenzy (março de 2023); Game Developer, comunicado sobre Berzerk: Recharged (novembro de 2023).
  • Hardware.com.br, “O jeitinho, os clones e a chegada do Atari ao Brasil”: https://www.hardware.com.br/artigos/jeitinho-clones-chegada-atari-brasil/amp/
Publicado em:Bora Jogar?,Cultura Pop,Games,Retrogames

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