O técnico de boxe norte-americano Angelo Dundee era uma lenda no final dos anos 80. Já havia treinado e vencido com Sugar Ray Leonard, com George Foreman e tinha domado e feito campeão um certo Mohamad Ali. Quando foi anunciado técnico do brasileiro Adilson “Maguila” Rodrigues, alguém disse “Trouxemos um técnico diretamente do Olimpo.” Maguila era o segundo colocado de alguma destas milhares de entidades mundiais do boxe – esporte que à época tinha umas trinta FIFA´s . O campeão era Mike Tyson, que por critérios da época, não era o primeiro do Ranking – já que então, o campeão era chamado “Campeão”. Seu desafiante natural seria portanto o primeiro do ranking, outro norte-americano, chamado Evander Hollyfield.
Os empresários de Maguila no Brasil, dentre eles o também lendário narrador Luciano do Valle (minha geração viu muitas lendas em atividade, por isso somos chatos) resolveu que Maguila iria desafiar Hollyfield antes deste encarar Tyson. As regras previam esta possibilidade, vista com entusiasmo por Don King, o Dana White da época, mas que ao contrário deste tinha cabelo e era todo espetado, em forma de coroa, para justificar o “King”. Sim, era uma época divertida.
Pois bem. Marcaram a luta para uma cidade de Nevada, que não foi Las Vegas, mas uma cidade onde havia um hotel Ceasar Palace. Montaram uma Arena às margens de um lago local, ficou bem bonito. Aí o cast de Maguila resolveu chamar Angelo Dundee para treiná-lo para a luta. Com aquele currículo, Dundee colocaria Maguila para derrubar Hollyfield com um peteleco. Na luta, Maguila caiu no segundo round, nocauteado por aquele que venceria Myke Tyson por nocaute técnico no décimo primeiro round na primeira luta e por desclassificação de Tyson na revanche, após este lhe arrancar um naco da orelha com uma mordida. Angelo Dundee não foi muito criticado, já que dava para ver que Maguila não era muito páreo para o futuro Campeão. Mas aí quis marcar uma outra luta, desta vez uma exibição, contra George Foreman, de passado glorioso, mas àquela época já caminhando para pendurar as luvas e abrir uma fábrica de sanduicheiras. Dundee, que já havia treinado Foreman, garantia que ensinaria Maguila a derrubá-lo.
Na luta, via-se um Foreman lento, meio gordo, já passado dos quarenta, dez anos mais velho que Maguila. Eis que, no segundo round, o nocaute. De Foreman em Maguila. Luciano do Valle, que anunciara a luta como uma barbada para o brazuca, começou a vociferar contra Dundee, até que desabafou a frase lapidar, “esse Angelo Dundee faz pensar que a distância entre a genialidade e a picaretagem é curtíssima”.
Carlo Ancelotti talvez tenha feito como técnico de futebol mais do que Dundee no boxe. Bem se diga que relutou até a última hora vir treinar a Seleção Brasileira. Nunca um técnico com o seu passado de conquistas treinara o Brasil e ele deixa os outros técnicos presentes na Copa comendo poeira. Mas… ele treina um time de Maguilas. Certamente esta Seleção perderia de muitos dos clubes que ele treinou. Entende-se que ele tenha um nome imenso a zelar e talvez isso explique a estratégia que pensou para a estreia contra Marrocos, colocando um time que absolutamente nunca jogou junto na vida – a maioria aliás esteve na última Copa. Foram oito do time do Qatar. Com nenhum lateral direito e nenhum meia armador. Numa postura defensiva, reativa, contra tudo o que o Brasil mostrou em Copas.
Está difícil entender se aquilo foi estratégia ou pânico. O empate foi decepcionante até pela injustiça com Marrocos que chegou a ter 60% da posse de bola. A boa notícia foi que Vinícius Jr chamou o protagonismo. E foi o único do time com direito à absolvição. Talvez eu absolveria Casemiro só pela traulitada que deu num marroquino que lhe gerou um cartão amarelo, mas se não faz aquilo o sujeito iria parar dentro do gol do Alisson. Fez o que deveriam ter feito no segundo gol da Bélgica em 2018 – jogo em que ele não atuou exatamente por estar suspenso por cartões.
Essa geração sabe que não é fora de série, e mostrou que joga com o mundo nas costas. Ancelotti talvez nunca na carreira teve que motivar um time que não fosse favorito. Mas agora precisa.
Por enquanto ainda achamos muito longa a distância entre a genialidade e a picaretagem. Por enquanto…