Uma obra de arte é mais bela na medida em que é atemporal. Será bela em qualquer época que for apreciada. A beleza de verdade não fica feia com o tempo. Assim ocorre com a canção “Há tempos”, do Legião Urbana, que está no álbum “As quatro estações” – quarto álbum da banda , o primeiro com a formação de trio, lançado em 89. A canção pode ter sua indelével força medida pelos seus versos que sempre se aplicam a situações que nos levam à reflexão.
Ela cai bem no jogo de hoje do Brasil contra o Haiti, pela Copa. Vamos examinar alguns versos.
Comecemos por uma citação de um poema chamado “Desiderata”, de Max Ehrmann, que diz, “Muitos temores nascem do cansaço e da solidão”. A Seleção sentiu o peso de ter sido forjada na geração menos inspirada dos últimos tempos. Foram eliminatórias sofridas até chegarmos na Copa. Foi um primeiro jogo decepcionante, pelo empate com Marrocos. Normal que os atletas se sentissem cansados de tudo, e abandonados.
E, em meio ao cansaço e à solidão, os temores contra o… Haiti. Não o temor de perder mas o temor de não convencer.
Porque, convenhamos, na Seleção, “há tempos são os jovens que adoecem” – sem bem que nossos jovens bem que tentaram hoje. Tanto Rayan, como Endrick protaginizaram a segunda vez que a seleção teve dois jogadores com menos de 20 anos em campo – primeira vez foi com Pelé e Mazzola em 58. Se nossos jovens estão inteiros, dispostos e viris – como convém a jovens, nosso (chamado) “Menino” está adoecido, “há tempos”. Menino Ney se bobear nem consegue atuar na América do Norte, assim como jovem Wesley – 22 anos – contundido no último amistoso no Egito. A maré tá braba e só nos resta constatar que com a amarelinha, “há tempos o encanto está ausente”.
O time liquidou o jogo no primeiro tempo, com gols vistosos. Bons chutes, no terceiro, de Vini Jr e no segundo gol, também de Mateus Cunha, já que no primeiro, ele chutou um monte de coisa menos a bola – mas a raspada que deu bastou para levá- la às redes. Um gol atrapalhado para uma comemoração esquisita, ele explicou depois que estava como que surfando. Tá.
No segundo tempo, um futebol burocrático, onde abrimos para os hatianos, que se não tivessem sido apresentadoa à bola apenas na semana passada, poderia dar encrenca. Na coletiva, Ancelotti atribuiu a pasmaceira do segundo tempo à preocupação com o próximo jogo. É que ele nunca ouviu “Há tempos”, porque senão explicaria citando “descompasso, desperdício, herdeiros são agora da virtude que perdemos”.
De bom, a atuação de Vini Jr e dos meninos – Endrick fez um gol, mas estava impedido, e Martinelli, que se apresentou para o jogo, sem falar de Mateus Cunha. Ancelotti parece ter um time – o do primeiro tempo. Precisa de mais, hoje foi praticamente como chutar cahorro morto, como diria nosso Editor. Tem que haver mais entrega contra a Escócia.
Hoje não fizemos mais que nossa obrigação, mas quanto a isso, cabe mais um verso: “Já estamos acostumados a não termos mais nem isso.”