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Vira-latas cordiais

Na crônica em que estabeleceu para a história a expressão “complexo de vira-latas”, Nelson Rodrigues provocava a respeito do pessimismo do brasileiro com seu selecionado de futebol: “Não será essa atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?”.

Em 1950 fomos da soberba ao limbo, mas depois viemos construindo não só um justificado orgulho da Seleção como o fomos confundindo com patriotismo. Aliás, o mundo se dobra em respeito ao saber que chamamos o time que nos representa na Copa de “Seleção”. Nem os pais fundadores do rude esporte – os ingleses – se chamam assim. Preferem o modesto “English Team” do que apenas “Team”. Somos afinal dotados de quê? Pedigree ou vira-latice?

Talvez a resposta esteja em Ribeiro Couto e sua famosa expressão “homem cordial” – Sérgio Buarque de Holanda sempre reconheceu a autoria do colega, apenas universalizou a expressão, dizendo que seria essa nossa principal herança legada ao mundo. E já nos prevenia a respeito de interpretações errôneas da expressão, que não sugere um “homem polido” ou educado, ou cheio de mesuras.

“Cordial” vem de “coração”. Sim, somos um povo hospitaleiro, generoso, que não consegue dizer diretamente um “não”, que se despede dizendo “depois te ligo!”. Mas, adverte Sérgio Buarque, “seria engano pressupor que estas possam significar boas maneiras, civilidade. São antes de tudo expressões de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.”

Ressalta que um povo realmente polido, como o japonês, usa a polidez como defesa ante a uma sociedade com preceitos rígidos e naturalmente opressores. A lhaneza no trato, típica do japonês, equivaleria a “um disfarce, que permitirá a cada qual preservar intactas sua sensibilidade e suas emoções.” Assim, o indivíduo conseguiria manter sua “supremacia ante o social”.

Ele continua, afirmando que “nenhum povo está tão distante desta noção ritualista da vida que o brasileiro. Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez.” Para o “homem cordial”, viver em sociedade significa fugir da apavorante responsabilidade de ter que se haver consigo mesmo, com suas obrigações, limitações, frustrações e outros “ões”. Seria uma forma de nos lançarmos aos outros, para enfim nos reduzirmos, enquanto indivíduos, à nossa parcela “social, periférica, que – no brasileiro – tende a ser a que mais importa.”

De maneira que há duzentos e poucos milhões de cordiais em ação assistindo a outros onze dentro do campo, vestidos de amarelo. Ao contrário do que imaginamos, nossos “gênios” não foram admirados pelos traços “macunaímicos”. Romário não era quem era aos nossos olhos porque não treinava. Era quem era porque não fugia de si mesmo.

A camisa campeã do mundo cinco vezes parece por vezes pesar mais em quem a enverga do que para quem contra ela joga. Sai Copa, entra Copa e tudo desmorona quando tomamos um gol. Um mísero gol, nada mais que um gol.

Por outro lado, o complexo de vira-latas se mostra mais que nunca uma arrogância disfarçada. O jogo Brasil x Suíça foi o de seleções com a melhor posição no ranking da FIFA que jogaram entre si. Pode não ser nada, mas… a gente sabia quem eram os Suíços? Quantos sabem que no próximo jogo, contra a Costa Rica, teremos diante de nós o goleiro do Real Madrid?

Mais que isso, por que tanto desânimo com um empate contra a Suíça – a mesma Suíça que derrotou a Espanha em 2010 – para que depois esta fosse campeã naquela Copa? Por que o desânimo ante a um empate, se a Alemanha empatou com Gana em 2014 na primeira fase, sofreu pra colocar 1 x 0 na Argélia – é, na Argélia – nas oitavas e ficou no 0 X 0  com a França até o final do jogo e assim chegou diante do Brasil nas semifinais (o resto deixa pra lá…).

Sem falar na Itália em 82, que por falta de um, amargou três empates (com Polônia, Peru e Camarões) no seu grupo, para na fase seguinte jogar com o Brasil e deixa pra lá de novo…

E assim sempre será. Mais cordiais que vira-latas. Aliás, Eduardo Gianetti acabou de lançar um livro de ensaios chamado “Elogio do vira-lata”, onde declara que somos geneticamente vira-latas mesmo, uma vez que somos afro-euro-ameríndio-descendentes”, mas que esta mistura nos enriquece.

De fato, é quase regra que num canil onde predominam cães de raça pura os vira-latas mereçam respeito. Os bichos devem imaginar que ali se encontra alguém mais apto por conta da mescla de raças ou, na pior das hipóteses, um colega que aprendeu tudo na “universidade das ruas”. E quando sai o dono a passear com seus cães estrelados, vai lá o vira-latinha altivo, altaneiro, à frente.

Já foi assim conosco perante ao mundo. Por cinco vezes.

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Publicado em:Crônicas,Entretenimento,Uma Copa Qualquer

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