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Fui agredido

Kevin Arnold sempre defendeu em suas aventuras (e desventuras) da adolescência: na vida, nada sai como a gente planeja. E de fato, em toda minha vida – e já se vão 45 anos dela – pouca coisa que planejei deu certo. Hoje eu não quero falar sobre o que planejei… nem sobre o que não deu certo. Quero falar do inesperado. Quero falar do dia em que fui agredido.

Quem sai de casa para apanhar?

Quando moleque eu não tinha a real ideia da minha força ou do meu tamanho. Bem é verdade que muitas vezes eu me sentia um verdadeiro bundão. Incapaz de reagir a qualquer provocação e com medo que qualquer sugestão de ameaça.

Mas é claro que eu não queria apanhar por aí… eu queria ficar em paz com meus pensamentos, minhas ideias, meu mundo… mas alguns moleques não pensavam assim. Veio então aquilo que a nova geração chama de bullying.

E eu não reagia a nada disso.

Aí ganhei um apelido insuportável, uma fama de boboca, o afastamento das pessoas… eu não tinha amigos. Não tinha um grupinho de traquinagens. Alguém para ligar no final de semana. Não era chamado para a casa de ninguém. Sem festas, sem amigos, sem diversão. E dificilmente fazia alguma atividade social.

Em resumo, eu não saia de casa. Eu não queria sair… não queria sofrer nenhum tipo de agressão… física ou verbal.

Para evitar ser agredido… a auto-defesa

Em algum ponto da minha vida, veio o Karatê. Foram anos treinando e aprendendo técnicas que tinham uma única finalidade: auto-defesa. Foi um período bom…

Treinando karatê, pude experimentar uma sensação diferente. Pude experimentar a sensação de ter amigos. De repente, eu estava incluído em grupo social. Tinha pessoas para conversar, lugares para ir, histórias para contar. Eu não era diferente das pessoas. Eu era apenas mais uma pessoa.

Dois mundos… duas pessoas

Mas apesar disso, as coisas na escola continuavam da mesma forma. Sem amigos, alvo de piadas e chacota. Eu me distanciando…

Encontrava alívio nas noites de segunda, quarta e sexta. Depois diariamente. Treinar me ajudava a esquecer aquele mundo de grosserias e diferenças. E eu nunca contei sobre o que fazia fora da escola. Da mesma forma, eu também não contava no dojo sobre o que fazia na escola… em resumo, eu convivia em dois mundos diferentes e era quase duas pessoas diferentes.

Da faixa branca até a faixa preta

O tempo de karatê me fez muito bem. Cresci, emagreci, participei de algumas competições e em algum ponto da história, cheguei à faixa preta. Nesta época cheguei à minha altura (1,87m) e tinha um peso compatível (cerca de 85 kg).

Ainda assim, eu me considerava um cara bem estranho…

Chegar à Faixa Preta... um dos meus orgulhos
Chegar à Faixa Preta… um dos meus orgulhos

Mas a tal faixa preta me deu confiança… até então, eu tinha brigado duas vezes em minha vida. Sabe aquelas brigas de colégio? Uma trocação de sopapos até que algum inspetor viesse apartar. Na primeira vez que briguei, tinha 9 anos de idade. Briguei com um tal de Jorge. Ele me deu um soco na boca que me fez sangrar.

A outra briga foi aos 10 anos de idade com um cidadão chamado Youssef. Foi a minha vez de dar um soco na boca… e sair correndo.

Esta briga aliás, foi curiosa… minha mãe me buscou no colégio e soube do ocorrido. Ela tratou de conversar com a mãe do garoto e no final das contas ele acabou sendo convidado para meu aniversário. Não foi exatamente uma festa. Foi somente um bolo com alguns sanduíches. Como convidados, somente ele e outro garoto chamado Humberto.

Meus aniversários da infância nunca foram divertidos mesmo.

Na academia, as coisas seguiam rumos diferentes… festas surpresas, presentes, ovada (sim… uma tradição dos anos 80). E curiosamente, fazendo karatê para não apanhar, aprendi algo interessante: aprendi a não procurar brigas.

As lutas ficavam restritas aos torneios… com regras e juízes.

Um erro infantil

Mas quando somos jovens adultos, acabamos por cometer alguns erros. Lembro que logo que ganhei minha faixa preta eu contava com 18 anos. Eu me senti orgulhoso. Achei que não precisava mais me preocupar com provocações, afinal eu já estava fora do colégio e me preparava para meu vestibular em um cursinho na cidade.

Lá, as pessoas estavam mais preocupadas em estudar e não em arrumar confusão. Afinal de contas, o futuro de nossas vidas começava por ali.

Ocorre que eu comecei a sentir um excesso de confiança. Bons resultados em torneios, a sensação de força e o conhecimento de boas técnicas me tornaram um provocador. Eu não saia puxando briga, mas também não abaixava a cabeça.

E aí eu aprendi uma grande lição: Por mais forte que você seja, sempre existe alguém com mais força que você.

Em um destes momentos de excesso de confiança, caí na provocação de um cidadão… lembro que o cara se chamava Anderson. Era um chinês invocado que falou algumas bobagens para mim. Falei outras para ele…

E daí veio uma briga… onde eu apanhei. E muito…

Uma briga idiota sempre traz consequências

Fiquei realmente machucado. Hematomas pelo corpo, inchaços, um pequeno corte na sobrancelha… O tal Anderson era muito bom em artes marciais também. E bem melhor do que eu.

Mas o que doeu mais foi o que aconteceu em seguida: por uma destas ironias da vida, meu sensei acabou descobrindo sobre a tal briga. Lembro que na época eu tomei o cuidado de não aparecer na academia sobre o pretexto de estar estudando, enquanto me recuperava.

E quando voltei ao dojo para treinar, meu sensei começou a aula e imediatamente me ordenou que eu ficasse sentado durante toda a aula. E isso se seguiu pelas próximas três semanas. Confesso que pensei em abandonar tudo.

O fato, é que depois desta lição, ele me deu mais uma. No primeiro treino em que pude participar, veio uma nova ordem: eu deveria treinar sem faixa. E em um dojo, isto é um grande castigo. Mesmo os novatos fazem jus a uma faixa.

E não era mais um faixa preta. Apenas um moleque… um galo de briga.

Erros levam ao aprendizado

Não sei explicar como… mas acho que aprendi minha lição. Depois de um tempo treinando sem faixa (uns dois meses) recebi autorização para usar a faixa novamente.

Mas eu já não era o mesmo… Aquela confiança excessiva deu lugar a uma prudência inesperada. Eu passei a evitar confusões, aglomerações, problemas. Eu me tornei alguém extremamente passivo. E a vida seguiu… e não me meti mais em brigas.

Mas elas continuaram a me procurar…

O uso da força quando necessário

Claro que em tantos anos de vida, algumas vezes o uso da força foi necessário. Mas depois da surra que levei – bem como o castigo que recebi – percebi que algumas brigas era absolutamente desnecessárias.

E outras eram totalmente inevitáveis…

Felizmente, eu sempre soube distinguir o desnecessário do inevitável. E quando inevitável, eu me defendi. Nunca mais tive problemas com a violência.

Exceto por duas vezes…

Da primeira vez, eu atravessava a rua para levar minha filha na escola. Na ocasião, uma criança de pouco mais de quatro anos de idade. A rua em questão sempre é bem movimentada no horário. Mas há uma faixa de pedestres. E normalmente os veículos respeitam a faixa, ainda mais se tem uma criança pequena junto.

Uma rua movimentada, mas com uma faixa de pedestres normalmente respeitada pelos motoristas
Uma rua movimentada, mas com uma faixa de pedestres normalmente respeitada pelos motoristas

“Fo&@-se sua filha!”

Naquele dia, havia uma fila com uns quatro carros. E como de costume, o carro da frente me deu a preferência. Ocorre que neste dia, um cidadão mais apressado resolveu cortar a fila pela direita chegando até a subir na calçada (na foto, observe que a calçada é rebaixada).

E por pouco ele não me atropelou e a minha filha. Minha reação foi puxar minha filha e dar um tapa na lateral do carro. Chamei-o de “maluco irresponsável”.

Em ato contínuo, o cara me fechou logo à frente e começou a berrar comigo: “Tá louco, seu escroto?”. “Tá pensando que tá batendo na sua geladeira?”… isso, entre outras pérolas.

Na discussão que surgiu, em determinado momento disse a ele que poderia ter atropelado a mim e a minha filha. E então, ele arregalou os olhos e disse em alto em bom tom:

“Foda-se a sua filha!”

Lembro que vi alguns pombos ciscando na frente do mercado. Dei um pontapé na porta do carro e calmamente me dirigi para minha filha e disse: “Meu amor, vá até ali ver os pombinhos… o papai vai conversar com o homem do carro. Por favor, não olhe, combinado?”

O “Combinado?” é a nossa chave secreta… ela então foi aos pombos.

Não espere que eu escreva aqui o que aconteceu em seguida… não dá.

Uma porta arranhada

Esta é bem mais recente. Apenas alguns dias atrás. O texto já ficou grande… então tentarei ser resumido. Um dia, ao estacionar meu carro (por falta de vaga, até então eu estacionava meu carro como mensalista num estacionamento pago, junto a um supermercado), encontrei um bilhete de um funcionário do mercado para que eu entrasse em contato.

Quando procurei o mercado, fui informado que o meu vizinho de vaga fizera uma reclamação, alegando que eu havia estragado a porta do carro dele por não tomar cuidado ao abrir a porta.

Aí entramos em terreno cinza e nebuloso… afinal de contas, é a palavra de um contra o outro, já que as câmeras do estacionamento não filmam aquele ponto específico e neste caso, ficamos naquela incômoda situação do “minha palavra contra a dele”.

Não tenho aqui a intenção de me colocar como o dono da verdade. Não sou perfeito e pode realmente ter ocorrido de em alguma vez eu encostar a porta no carro do cidadão. Como o contrário pode ter acontecido também.

Mas eu sou do tipo de cara que – se eu causei um dano – me antecipo à pessoa. Deixo o contato e tento resolver o mais rápido possível. Tenho consciência do meu tamanho e tomo o máximo de cuidado possível.

Ciente disso, procurei o cidadão para esclarecer a situação.

Duvido que o senhor faça isso todos os dias!

Nosso primeiro contato foi por telefone. Ele mandou um mensagem afirmando que eu causei o dano e mandou fotos da porta em questão. Naquele momento, eu não vi nenhum dano ou amassado que poderia ser minha culpa. E expliquei isso de todas as formas possíveis.

Naquele primeiro momento, o cidadão aparentemente havia se resignado com o fato de que aquele eventual dano poderia ter sido causado por qualquer pessoa em qualquer lugar.

Mas no dia seguinte, recebo nova mensagem. Ele insistia em me encontrar para fazer uma espécie de acareação para que ele pudesse provar que eu realmente causei o dano.

Contrariado e relutante, aceitei. Afinal, a consciência estava (e ainda está) absolutamente tranquila. Respondi a mensagem dizendo para marcarmos um dia e horário.

Era por volta de 20h00 de uma quarta-feira… fui guardar o carro como de costume. Para minha surpresa, o cidadão estava lá me esperando. Segundo ele, desde às 17h00 para garantir que me encontraria.

A conversa começou tranquila, mas logo se tornou áspera e em tom acusatório. Ele tentava mostrar – sem resultado – de todas as formas que meu carro tinha causado o dano. Chegou a ponto de exigir que eu saísse do carro e mostrasse que a porta arranharia seu carro.

Humilhado, nervoso e aborrecido, concordei. Entre e saí do carro sem causar nenhum contato físico com o carro dele. Ali, ele soltou seu primeiro gesto de agressividade.

“Duvido que o senhor faça isso todos os dias!”

Disse a ele que não tinha razão para mentir sobre isso. Sua resposta foi mais uma indireta…

“Eu tenho um filho de 14 anos. E a primeira coisa que fiz questão de ensinar é que mentir é uma coisa errada e feia.”

Chegamos ao cúmulo de em algum momento ele comentar a questão da idade. Que ele tinha 34 anos e era responsável e de palavra… já eu…

Aqui é lutador, seu bosta!

A partir daí a coisa azedou. Ele me acusava direta e indiretamente de estar mentindo e de ser falso. Me acusou de arrogância entre outras coisas. Eu me limitava a dizer coisas como “Não sei onde o senhor quer chegar” e “O senhor está levando a conversa para uma situação difícil”.

Cansado de tantos rodeios, quis encerrar a conversa dizendo que eu não assumiria a responsabilidade de algo que eu não causei e que estava com a consciência tranquila. Ele então, me colocou contra a parede:

“E como é que eu fico como o meu prejuízo?”

Disse que não sabia e tentei encerrar a conversa.

E foi aí que aconteceu… acho que até agora não comentei, mas o cidadão tinha uma compleição física avantajada. Não tão alto como eu (uns 1,83~1,84 eu creio) mas bem forte e visivelmente um daqueles tipos que sempre estão em academia.

Ele partiu para agressão… me empurrou, assumiu postura de luta e começou a desferir chutes contra minha perna. Depois contra meu torso e também socos na minha nuca.

Veio como um touro bravo. A experiência de tantos anos com o karatê fez com que eu assumisse uma postura de defesa contra tantos ataques. Ele era muito forte mesmo. Talvez em um dojo – em igualdade de condições – a história fosse diferente. Na verdade, acho que se eu reagisse, a surra não teria acontecido.

Mas alguma coisa me dizia para não reagir. Instinto? Anjo da Guarda? Deus?

Ele batia e batia cada vez mais… lutador experiente, agredia sempre o mesmo ponto. Tentou quebrar meu joelho, mas não conseguiu acertar o ponto certo.

E em meio aquela saraivada de golpes, frases desconexas:

“Aqui é lutador, seu bosta!”, “Hup, Hup, Hup”, “Tá pensando que eu não conheço as quebradas?”, “Eu vou te quebrar inteiro”

O que não resolvo no braço, resolvo na bala

As agressões começaram dentro do estacionamento e alcançaram a rua… depois de tantos ataques sem sucesso, acho que ele cansou. Parou com os ataques.

“Satisfeito? Terminou o que queria fazer?”

Ele me olhou atônito. Acho que não esperava que depois de tantos golpes eu ainda poderia dizer algo. Sem saber o que falar, continuou com os xingamentos e agressões verbais.

Ele voltou ao estacionamento e foi em direção ao carro. Continuou falando, falando, falando… E eu não sou também um monge budista. Respondi a altura as provocações. Ele então disse o seguinte:

Melhor eu parar porque senão eu te arrebentaria todo!

Minha resposta foi rápida… “Não sei se o senhor reparou, mas mesmo depois de tantos golpes de lutador, eu ainda estou de pé… Acho que o senhor não conseguiu o que queria”.

Ele parou, olhou para mim, levantou a camisa e mostrou uma arma. Não chegou a apontar. Mas foi categórico:

“O que eu não resolvo no braço, resolvo na bala. Tem bastante espaço aqui no porta-mala do meu carro pra você, viu?”

Disse isso, entrou no carro e ao sair ainda disse que eu poderia deixar o carro ali.

Claro que saí dali com o carro assim que ele desapareceu com o carro dele… um modelo sedan popular entre motoristas de aplicativos num tom marrom metálico.

No final... o prejuízo físico e moral ficou comigo
No final… o prejuízo físico e moral ficou comigo

A conclusão de um infeliz episódio

Fato curioso (ou aterrador) foi quando voltei quase duas horas depois para guardar o carro. O cidadão estava lá novamente. Curiosamente no momento em que eu cheguei novamente.

Ainda perguntei se ele não estaria me seguindo… o que ele “espertamente” negou. Como eu estava acompanhado, desta vez ele evitou o confronto, mas não deixou de provocar:

Não bastou a primeira vez? Quer levar mais uma?

Apenas respondi… “Não haverá uma segunda vez…”

Sei que é uma história longa… talvez chata e sentimental. Sim… eu tomei algumas providências: fui à delegacia e registrei boletim de ocorrência por lesão corporal e ameaça, com direito até a exame de corpo de delito. Fiquei quatro dias mancando, isso sem contar as lesões.

As manchas são hematomas... a foto não reproduz o inchaço. E claro eu descaracterizei a imagem
As manchas são hematomas… a foto não reproduz o inchaço. E claro eu descaracterizei a imagem

Mas, considerando que se eu reagisse talvez eu não pudesse contar esta história, talvez tenha sido melhor ser agredido. Pois é… fui agredido. Não reagi e isso me custou minha integridade física. Sem contar o psicológico… afinal, por conta da ameaça achei melhor não usar o estacionamento do mercado, que sequer teve a decência de prestar qualquer apoio a mim – a vítima – nesta questão.

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Publicado em:Crônicas,Noites de Insônia

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