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Futuro Profissional… Divagações aos 46 anos de idade

Bem que eu gostaria que este fosse um texto onde eu comento sobre minha trajetória profissional em uma carreira recheada de sucessos e realizações. Seria muito bacana servir de inspiração para futuras gerações profissionais com a apresentação daquilo tudo que fiz ao longo da vida e até este ponto dela. Mas não é bem isso que pretendo aqui… Quero falar de futuro profissional… divagações aos 46 anos de idade de um cara que nunca encontrou seu rumo profissional.

Um dia, eu quis ser médico

As visitas ao consultório médico do Dr. Zuccas já foram tratadas por aqui. Sempre que minha temperatura corporal oscilava 0,1ºC ou ao menor sinal de mudança de qualquer coisa em minha rotina, lá ia minha mãe me levar ao pediatra.

Não sou tão compulsivo com minhas filhas. Hoje sei que a ida ao médico deve seguir um rito que acompanha a evolução da possível patologia, mas para meus pais, qualquer ponto fora da curva era razão para ir ao Dr. Zuccas.

E eu confesso que eu adorava. Eu o enchia de perguntas. Daquelas que tinham algum sentido até aquelas que não tinham o menor cabimento. Ele respondia pacientemente à todas elas. Tratava-me como um igual. E eu achava muito legal aquela história de perguntar, examinar, receitar, dispensar… Ao final de cada consulta eu solenemente decretava: “Quando crescer, serei médico que nem o senhor!”.

Quero ser médico...
Quero ser médico…

Ele sorria… somente muitos anos depois eu compreenderia sua paciência monástica para com o seu pequeno paciente sonhador.

Auxiliar de escritório (do meu pai)

Lá pelos meus 15-16 anos meu pai era um próspero comerciante. Contava com uma transportadora, um oficina de mecânica diesel e alguns postos de gasolina. Em meu juramento solene ao Dr. Zuccas eu mantinha minha promessa de ser médico. E era o que eu respondia a todos quando me perguntavam o que eu queria ser.

Mas aquela era uma época onde um adolescente como eu tentava a todo custo chamar a atenção dos pais para o meu potencial. Eu queria mostrar serviço e capacidade de fazer algo… Meu irmão mais velho já trabalhava com meu pai desde os 15 anos. Aliás, foi graças a isso que fez com que meu pai desse a ele – ainda aos 15 anos – um carro para que ele pudesse ir à escola e trabalhar.

Eu nunca me interessei pelo carro, mas tinha uma inveja danada da forma como meu pai já considerava meu irmão um adulto crescido, a ponto de lhe dar um trabalho e um carro.

Seja como for, quando chegou minha vez, eu quis mostrar ao meu pai que poderia ser um adulto. Pedi uma oportunidade a ele. “Mas você não quer ser médico?”, ele me perguntava toda vez que eu tocava no assunto. Não sei se venci pelo cansaço, mas o fato é que ele resolveu me dar uma oportunidade como auxiliar de escritório em um dos postos de gasolina.

Caçulinhas e suco de laranja

Meu trabalho no posto seria relativamente simples: eu deveria separar as notas fiscais dos clientes à prazo (o popular “fiado” da época) para semanalmente somá-las e apresentar a cobrança para estes clientes. Eu também aprenderia a “fazer o caixa” do movimento de vendas do posto. E o caixa tinha que “bater” com o montante de dinheiro que o posto recebia. Por fim, eu deveria também atender ao telefone no escritório… “Auto Posto Algo Mais, boa tarde!”, seria meu cartão de visitas.

Além disso, meu pai havia autorizado o bar que ficava em frente ao posto a me vender refrigerante fiado, com ele acertando a conta no final da semana. Naquela época eu ainda era fã das “caçulinhas”, uma pequena garrafinha de guaraná menor que a garrafa normal. Então, toda vez que batia a sede, eu poderia tomar água do bebedouro do posto ou – vez ou outra – tomar um caçulinha no bar. E vez ou outra eu ia… umas quatro ou cinco vezes por dia…

Depois de três semanas, meu pai veio me dizer que saia mais barato ter um funcionário pago com salário por lá do que eu pago com caçulinhas. Ele cortou o refrigerante a duas caçulinhas por dia ou um guaraná normal.

Aí, mudei a estratégia: tomei por empréstimo uma garrafa térmica de 3L que meu pai usava para pescarias e levei até uma padaria próxima. Pedi que eles completassem com suco de laranja natural, pagando – é claro – com dinheiro do posto. A farra do suco de laranja durou apenas um único sábado. Depois de tomar um tremenda bronca por colocar suco na garrafa que meu pai usava para por água em suas pescarias.

Apesar dos reveses, eu ainda queria mostrar serviço para meu pai.

Um garoto e seu computador

Ainda entusiasmado, eu sugeri levar meu computador para o escritório para fazer algumas tarefas: relatórios, cartas, contas e outras coisas que surgissem por lá. Não lembro se ele estava entusiasmado ou se apenas estava de saco cheio de eu tanto insistir… mas ele topou.

O problema é que estávamos em 1990… uma época em que os computadores não são como hoje. Aliás, o computador em questão era um MSX que eu usava na maior parte do tempo como um videogame. Ele até tinha um processador de textos, uma planilha de cálculos e também um aplicativo para banco de dados. Mas não tinha alguém competente para usá-lo de modo produtivo em um escritório.

Assim, a experiência do computador durou pouco mais de 2 meses… Ainda lembro do sócio do meu pai dizendo: “Esta porcaria aqui só ocupa espaço e gasta energia”. O computador voltou para casa. Assim como eu também voltei… não era competente e não conseguia fazer as somas corretamente. O sócio do meu pai achou melhor contratar um auxiliar de escritório de verdade. Foi o fim da minha carreira com meu pai.

Do colégio ao cursinho

Voltei então a ser apenas um estudante medíocre do ensino médio… ia as aulas do colégio pela manhã, estudava um pouco a tarde – isso quando eu fazia a lição de casa – via tv e aqueles inúmeros seriados japoneses. E levava a vida assim…

No meu primeiro e segundo anos do ensino médio – naquela época, chamado de colegial – eu vivia o dia-a-dia… sem grandes planos, sem grandes projetos. Mas então eu chegara ao terceiro colegial e por conta de um namorico fracassado no ano anterior, eu resolvi que enfiaria a cara nos estudos. Propus aos meus pais mudar de escola e no período da tarde, fazer curso pré-vestibular. Estudaria numa escola do Colégio Objetivo pela manhã e à tarde, faria o curso pré-vestibular no Anglo Vestibulares.

Meus pais toparam… afinal de contas eles estavam investindo no futuro médico da casa… O que eu não contei a eles é a razão pela qual eu queria fazer o cursinho. Lembra do namorico? Pois é… a menina em questão era um ano mais velha do que eu… e já estava fazendo pré-vestibular no tempo que namoramos. Como ela não havia passado na FUVEST e na Vunesp, ela havia dito que iria fazer mais um ano de cursinho… o tal Anglo Vestibulares.

Me parecia uma boa ideia estar por perto de onde ela estivesse para tentar reatar o namorico (que durou uns 2 meses).

O plano era bom… mas faltou combinar com os pais dela… no final das contas, ela foi aprovada em uma faculdade particular e os pais aceitaram em arcar com as despesas. Sendo assim, ela nunca retornou ao Anglo. Com isso, eu acabei por me preparar para o vestibular de fato. E muita coisa boa e ruim aconteceu por lá. Quem sabe não escrevo sobre isso em outra noite de insônia?

Mas nesta aqui, estamos falando da minha vida profissional… então continuaremos com ela.

Quase médico… foi o que pensei na ocasião

Durante o meu período vestibular eu realmente fui apenas um estudante. Após tanto insistir, em 1995 eu era aprovado no vestibular da Universidade Estadual de Campinas para cursar Medicina. Finalmente alcançara meu sonho de criança. Lembro que eu deveria me apresentar para o primeiro dia de aula em 06/03/1995. Mas uns dias antes fui fazer uma visita ao médico que tanto me inspirou a ser médico. Fui visitar o Dr. Zuccas.

Lembro que a enfermeira/secretaria (Leci, se não me esqueci do nome) achou engraçado um rapaz com 20 anos de idade aparecer para consulta com o pediatra. “Queria só dar uma palavrinha com ele, se possível”. Foi possível.

Entrei radiante em seu consultório. O mesmo que já havia visto tantas vezes… uma mesa, um armário embutido com fórmica imitando madeira… duas cadeiras para os pacientes, uma pequena maca e um armário de vidro com vários instrumentos. Na parede um cartaz de 1979 com o ano internacional da criança e um retrato de um senhor que eu sempre acreditei ser o pai dele.

Outra coisa que me lembro é de uma pequena escultura onde um médico segura um paciente pelos braços, protegendo-o dos braços da morte, ali representada com sua habitual veste negra e sua foice. Eu era apaixonado por aquela escultura e sonhava em ter uma em meu futuro consultório.

Contei a ele a novidade… Que depois de tantos anos, e conforme eu havia prometido a ele, nós finalmente seríamos colegas… eu já era quase médico e na próxima segunda-feira eu começaria minhas aulas na faculdade. Ele sorria… Acho que estava genuinamente feliz por mim e pelo fato de ter sido uma inspiração…

Ele então me deu alguns conselhos sobre quais matérias eu deveria me dedicar mais e que eu teria que me dedicar muito para chegar ao final da faculdade. Desejou-me sucesso e – com a condescendência que só a sabedoria da idade nos traz – disse que ficaria muito feliz em ver novamente daqui alguns anos como médico formado. E que aguardaria minha visita.

Saí de lá feliz e satisfeito… “Agora falta pouco”, pensei… “Faltam só seis anos”.

Para ensinar, a vida te dá uns tapas na cara

Comecei a estudar na faculdade de ciências médicas da UNICAMP em 06/03/1995, XXXIII turma com previsão de formatura em 2001. Comecei empolgado, como qualquer outro estudante universitário. Ganhei um apelido, comprei roupas, livros, comecei a formar algumas amizades e segui a vida.

O problema é que no meu projeto de vida para ser médico, eu planejei como seria tudo até o momento em que eu entraria na faculdade de medicina. Em minha burrice e limitações intelectuais, eu acreditei que bastava entrar na faculdade, que todo o resto se resolveria com o tempo.

Não foi bem assim. Além de eu não levar a faculdade com a seriedade que deveria, meus pais entraram em uma grave crise financeira a partir de 1996. O dinheiro encurtou e eu – que nunca havia sido preparado para lidar com dinheiro (e muito menos com a falta dele) – descobri que eu não sabia nada de finanças domésticas. Não sabia o valor do dinheiro… nem o valor de estar ali numa das melhores faculdade de medicina do país.

Mas a vida é um professor exigente. E ele cobra de você justamente o necessário para que você cumpra os seus objetivos planejados. E o problema é que eu não aprendi esta lição. O resultado, muita gente que acompanha meus textos já conhece… em 2001 fui desligado da faculdade e retornei à SP… sem diploma… sem ser médico… sem ter uma profissão.

A “carreira” como Instrutor de Informática

As aulas de informática e o plantão de dúvidas

Foi uma época difícil. Meu pai já não tinha transportadora, postos de gasolina nem oficina. E a muito custo ele mantinha as contas da casa. Lembro que quando voltei, em uma das inúmeras brigas que tivemos naquele período, ele me disse que não era justo eu viver lá de graça. E eu também não achava isso certo. Eu já estava com quase 27 anos de idade e não me parecia ético viver debaixo das asas do meu pai sem ajudar nas contas de casa.

Então… bolei um plano: eu arrumaria um emprego para guardar dinheiro e com o dinheiro guardado eu bancaria para mim um novo ano de cursinho pré-vestibular onde eu tentaria ingressar em uma faculdade de medicina aqui na cidade de São Paulo.

Minha mãe, conversando com minha tia, apareceu com uma proposta: ela tinha um conhecido que trabalhava em uma escola de informática no bairro da Vila Formosa. Como eu tinha bastante facilidade com computadores, poderia ser um caminho. Fui então me encontrar com um tal Gilmar. Foi ele que permitiu que eu acompanhasse as aulas da SOS Computadores e depois de algum tempo (2 meses para ser exato) me ofereceu a posição de monitor do plantão de dúvidas. Eu trabalharia às sextas-feiras no período da tarde e da noite. E eventualmente substituiria a ausência de algum instrutor.

Foi em 2001 que eu de fato ganhei o meu primeiro salário: R$ 42,00. E com ele eu comprei um par de tênis, porque eu ia até a escola a pé para não gastar com condução e meu tênis estava bem gasto por conta das caminhadas diárias.

Passou mais algum tempo e eles me ofereceram uma turma aos domingos pela manhã, entre 08h00 e 11h00. E depois de algum tempo, eu fui para a unidade Mooca, onde eu de fato me tornei instrutor em definitivo. Detalhe… nada disso contou com registro em carteira. Mas apesar disso, o pagamento parecia valer a pena. Comprei novas roupas, comprei até mesmo equipamentos eletrônicos… comprei um DVD, uma TV nova, vídeo cassete e até mesmo montei meu primeiro computador topo-de-linha.

E o cursinho?

E a ideia de fazer cursinho? Bom… eu levei isso a termo em 2002 (ou foi em 2003? Confesso que não lembro direito), quando me matriculei no Extensivo do Etapa Vestibulares. O Anglo estava além do meu orçamento e uma bolsa de 50% que eu consegui num concurso de bolsas do Etapa definiram minha opção. O problema é que os tempos eram outros… Eu não conseguia acordar cedo o suficiente para acompanhar as aulas presencialmente e além disso vez ou outra eu deixava de ir ao cursinho para pegar mais aulas na escola.

Eu mantive a matrícula ativa até agosto daquele ano, quando então cancelei a matrícula e resolvi que prestaria o vestibular por conta própria. E isso se mostrou um erro. Sem método e sem organização eu parecia mais um treineiro do colegial do que um candidato de verdade. Isso se refletiu no resultado dos vestibular. Eu sequer cheguei à segunda-fase da FUVEST.

Demissão e nova escola

Com a desistência do vestibular, eu passei a investir na minha carreira de “professor de informática”. Até então, eu acreditava que eu atuava naquelas escolas como um professor e não como um instrutor. Ninguém me dizia o contrário e eu também não fazia questão de duvidar desta tese…

Mas novamente, namoricos atrapalharam minha vida profissional. Em um dia que eu havia discutido com a minha então “namorada” que trabalhava na mesma escola (como recepcionista) eu acabei discutindo com um dos outros instrutores. A discussão acabou gerando minha demissão. Perdi o trabalho e pouco tempo depois, perdi (ou chutei, como prefiro acreditar) a então namorada.

Sem trabalho, e precisando de dinheiro fui atrás da única coisa que eu sabia mais ou menos fazer… aulas de informática. Não demorou muito e uma nova oportunidade surgiu, desta vez numa escola chamada Microcamp.

Um chamado gerado pela curiosidade

Olhando em retrospectiva, até que foi engraçada a maneira como consegui o emprego (novamente, sem registro). Ainda não éramos um sociedade plenamente digital, então eu investi no serviço postal. Imprimi e enviei pelo correio uma série de currículos para várias escolas que eu achei o endereço.

Na SOS, não fui chamado por nenhuma, pois eu havia entrado para a “lista verde” (que na prática era uma lista negra) e por isso estava banido de lá.

Algumas escolas chegaram a me telefonar ou enviar e-mails, mas a única que me ofereceu uma entrevista na época foi a unidade Penha da Microcamp. Fui até lá com a melhor das intenções para minha primeira entrevista de emprego.

Chegando lá, o coordenador me recebeu e começou a me perguntar sobre minha experiência profissional e meus conhecimentos de informática. Perguntou se morava longe de lá e fez algumas outras perguntas típicas de uma entrevista. Caminhando para a conclusão da entrevista, ele me diz então o seguinte:

“Olha, preciso ser sincero contigo. Eu não tenho nenhuma intenção de contratar você!”

Num primeiro momento fiquei aturdido com a afirmação. Me recompus da melhor forma possível e perguntei para ele por que razão então ele havia me chamado ali, se ele não iria me contratar de qualquer forma.

“É que eu fiquei curioso… você colocou aqui no seu currículo que você estudou medicina. E eu queria entender porque um cara que fez medicina quer trabalhar como instrutor de informática. Fiquei curioso para saber que cara você teria.”

Eu preciso dizer que provavelmente eu teria cara de palhaço naquela ocasião… eu realmente fiquei desconcertado com aquilo. Expliquei a ele de forma resumida o que tinha acontecido e agradeci pela oportunidade. Já de saída, ele me disse que caso surgisse alguma oportunidade, ele consideraria meu nome.

A oportunidade surgiu. Só que em outra unidade que precisava de um instrutor substituto. Fui então para a Microcamp Tatuapé para substituir um professor que havia faltado. Fiquei então como um instrutor eventual até que surgiu uma vaga na recém inaugurada unidade de Itaquera… longe pra caramba de casa, mas a única oportunidade que tinha em muito tempo.

De instrutor a coordenador

Apesar da distância, trabalhar em Itaquera foi algo bom. Recebi muitas turmas e o salário era bom. Fui registrado por um curto período de tempo (quatro meses), sendo que trabalhei ali por quase dois anos (final de 2003 até meados de 2005). Aliás, foi ali que conheci meu cunhado (ele foi meu aluno) e posteriormente minha esposa. Também comprei um carro (um Uno 1.5R 1989 caído, mas ainda com alguma dignidade) e eu achei que estava prosperando.

Apesar da relativa prosperidade, eu estava preocupado em oferecer uma vida decente para minha então noiva. Fazíamos planos e eu queria realmente oferecer a ela uma vida bacana. Foi nesta ocasião que um dos meus alunos do curso de hardware me ofereceu um emprego. Ele era proprietário de uma empresa de automação comercial e estava investindo na área de manutenção de computadores.

Ele me fez uma proposta boa para trabalhar lá. Eu receberia mais do que ganhava na escola e com isso poderia vislumbrar algo melhor para meu futuro casamento. Tentado pela oportunidade, pedi as contas e fui trabalhar com este meu ex-aluno por um mês, quando então fui demitido por sua esposa.

O problema é que as portas na Microcamp estavam fechadas para mim. E aí a água bateu na bunda… Minha “salvação” foi quando um colega da Microcamp falou de mim para uma conhecida que estava inaugurando uma escola de ensino profissionalizante na região. Fui contratado por eles (mais uma vez, sem registro) para ser professor do curso de montagem e manutenção de computadores). Depois de uns quatro meses, eles me convidaram para ser também o coordenador de cursos lá.

Parecia que tudo iria melhorar.

O assédio moral e mais uma vez no mercado

No começo, a escola até que foi bem. Começou a trazer alunos, começou a ter alguma repercussão e o trabalho rendia seus frutos. O problema é que depois de algum tempo, começaram a surgir problemas administrativos: atraso nos pagamentos dos professores e funcionários. Cobrança por parte dos alunos de promessas de emprego que foram feitas na ocasião da matrícula e o a falta de uma boa administração da empresa, que tratava as contas da escola como a conta pessoal. E isso agravou ainda mais o problema econômico.

Então começaram a surgir a insatisfação de alunos e funcionários. Perdíamos alunos e professores de uma forma que as contas não batiam. O apogeu de tudo isso se deu quando a dona da escola usou parte do parco capital de giro da escola para financiar o intercâmbio de seus dois filhos na Austrália. Em meio a tudo isso eu tentava fazer o meu trabalho. Abria mão do meu salário em troca de pequenas ajudas de custo na esperança de que dias melhores viriam.

Mas não surgiram. Ao invés disso, surgiram sérias desavenças com a dona da escola, que logo se transformou em verdadeiro assédio moral por dela e sua família. Comecei a ter insônia, crises de choro e um dia, após sofrer uma ameaça direta (entre tantas outras indiretas), eu dei um basta em tudo isso. Como resultado, fiquei sem o “emprego” e só depois de muito tempo isso foi parcialmente resolvido na justiça.

O assédio moral
O assédio moral

Da iniciativa privada ao funcionalismo público

Os tempos de estudante de medicina já iam longe. O ano era 2006 e eu estava desempregado, sem nenhuma formação profissional comprovada, sofrendo de depressão (só fui descobrir isso anos mais tarde) e desesperado por não ter nenhum futuro profissional e com uma promessa de casamento em mãos.

E em tempo de desespero, você toma medidas desesperadas. Foi meu pai que arrumou um trabalho para mim. Na verdade, ele pediu a um conhecido endinheirado dele para arrumar uma vaga no escritório da firma dele. Era uma firma de metais sanitários. Este conhecido preferiu me arrumar um trabalho na área de informática. Ele pediu então a outro amigo dele que me empregasse como um favor pessoal.

E assim, por um favor pessoal, fui trabalhar como suporte técnico numa empresa de automação de dados chamada Key Systems. E até criei um nome pomposo para minha função: Analista de Suporte Técnico.

Um desastre após o outro

Veja bem, eu estava grato por ter um trabalho. Precisava pagar as contas do futuro casamento, tinha dívidas e ter um trabalho com um salário mensal vinha bem a calhar.

O problema é que a ocasião gera a oportunidade e no meu desespero, a empresa notou que poderia conseguir mão-de-obra barata com baixo custo. Assim, fui contratado de novo sem carteira assinada e por um valor abaixo do mercado. “É o valor que posso pagar no momento”. Eu recebia mais ou menos a metade do salário que os outros “analistas” recebiam.

Mas era um trabalho. E um trabalho que eu não tinha o menor preparo para lidar. Eu não conhecia o sistema que eles vendiam, não sabia quais os problemas que eu teria que solucionar e para ajudar, alguns problemas não eram bem problemas, mas apenas algumas técnicas de programação para justificar o pagamento mensal da manutenção do sistema deles. Só fui descobrir isso muito tempo depois. Sempre fui muito ingênuo profissionalmente.

Não era um trabalho com o qual me identificava. O ambiente também não era legal e muitas pessoas ali tinham verdadeiro preconceito com o ex-estudante de medicina que foi instrutor de informática e que não sabia fazer o serviço.

O dia do registro

Apesar do cenário negativo eu me acomodei. Alinhei meus gastos com minha realidade financeira e fui levando com a barriga… (meu Deus do céu… como é que minha então noiva não me deu um pé na bunda naquela época?). Aí, um dia estava indo trabalhar quando senti falta de ar, suava frio e estava com taquicardia. Cheguei a entrar na rua da empresa, mas desisti e fui ao hospital.

Até hoje não sei bem o que tive… vamos chamar de siricutico. Dei entrada no PS e fiquei internado por lá. Passei a noite em observação e depois fui para um leito hospitalar. Pressão descontrolada, uma tremenda crise metabólica e insuficiência respiratória sem origem determinada. Alguns pensaram ser um infarto. Mas como eu disse, continuarei chamando de siricutico.

Lembro que quando saí do hospital, minha mãe pediu que eu ligasse para o dono da empresa e assim o fiz. Ele me tratou muito bem e disse para eu ficar tranquilo que ele havia providenciado o meu registro em carteira com um aumento (afinal de contas eu não poderia ganhar menos que o piso, não é mesmo?) para que eu pudesse dar entrada tranquilamente na caixa por conta de meu afastamento do trabalho. O que ele não sabia é que eu tinha um atestado em mãos para os próximos 14 dias e que depois do siricutico eu voltaria a trabalhar normalmente.

Agora registrado e ganhando um pouco mais, percebi que o clima agora era outro. De um lado eles faziam de tudo para que eu pedisse demissão, de outro, eu preocupado em não ficar sem trabalho.

E aí veio a ideia do concurso público.

Secre”otário” de escola

Em 2008 eu entendi que a idade estava chegando e eu precisava ter algo mais estável e garantido. E por uma destas coincidências do destino, descobri que o estado promoveria um concurso para o cargo de Secretário de Escola cuja única exigência seria o Ensino Médio completo. E o salário inicial era maior do que eu recebia ali na empresa.

Então fui atrás do tal concurso, me inscrevi e até comprei as apostilas preparatórias. Fiz o tal concurso e – para minha surpresa – passei. A questão é que agora eu precisaria aguardar a tramitação das etapas do concurso até minha efetivação.

Ao mesmo tempo, a situação na empresa estava insustentável. Eu tinha um acordo com as pessoas de lá: eles me suportavam e em troca eu os suportava. Então um dia, o dono da empresa me chamou e – mais uma vez bem espertamente – me propôs fazer uma demissão sem justa causa de mentirinha. Ele me demitiria e eu devolveria pra ele a multa rescisória da demissão, com a contrapartida de que eu poderia sacar o FGTS e receber seguro-desemprego. Como eu pensava que já estava em vias de iniciar no estado, aceitei.

O longo caminho para a posse e exercício

Aconteceu que depois de quatro meses, nada tinha acontecido. Eu sabia que deveria me submeter a uma perícia médica e que só depois disso é que eu começaria a trabalhar. Mas que longa demora para isso acontecer. Entre minha saída da empresa e a perícia, foram quase 6 meses.

Veio então a perícia. Levei todos os exames e passei pelo perito. Depois da apresentação da papelada e exame físico, ele me perguntou:

E o ultrassom do fígado?

No edital, não se falava nada de ultrassom do fígado e eu disse isso a ele. Ele então rebateu que com aquele meu tamanho todo eu provavelmente tinha problemas no fígado e queria o ultrassom do fígado. Entre esta perícia, o exame e o meu retorno passou-se mais ou menos um mês. O exame felizmente estava dentro da normalidade e eu tinha certeza que após esse problema, tudo seria resolvido..

Mas não foi assim. Lá estava eu, com o mesmo perito, na mesma sala e com o novo exame. Ele mal olhou e disparou em seguida:

E o exame de enzimas para diabetes?

“Mas o senhor não falou nada deste exame!”… “Não falei, mas agora estou falando. Preciso deste exame. Com este tamanho todo você com certeza é diabético”. Saí dali em parafuso… O que mais precisaria? O histórico completo das minhas idas ao banheiro no ano de 2009?

Lá fui eu atrás dos exames. Por garantia, antes de fazê-los, fiz uma dieta rígida por uns 15 dias. No exame, tudo normal… glicose, proteína glicada e até curva glicêmica… tudo normal. E aí voltei ao mesmo perito e a mesma sala. Ele olhou os exames, olhou os outros papéis e deu um longo suspiro. Aí ele passou a olhar pra mim. Um olhar cansado de quem passava por aquela situação umas vinte vezes ao dia.

“Está faltando alguma coisa agora?”, perguntei… “Não… aguarde publicação no Diário Oficial”.

Foi a última vez que vi aquele perito. Dias depois, em contato com a Diretoria de Ensino Leste 5 veio a notícia: eu estava liberado para trabalhar. Era 24/08/2009.

Funcionário Público sim… mas buscando uma carreira

Preciso ser absolutamente honesto… não sei se passei no concurso por capacidade própria ou pela falta de capacidade dos outros. A questão é que percebi algo básico em meu primeiro dia de trabalho: eu não tinha a menor ideia de como era o trabalho de um secretário de escola. Eu não conhecia a rotina… não sabia os procedimentos… não conhecia a legislação. Estava totalmente perdido.

Para ajudar, minha escola não contava com funcionários na secretaria. Apenas uma moça que só sabia fazer históricos escolares. E nada mais… E para ajudar, uma senhora ruim e despreparada ocupava a cadeira da direção. E quando o calo apertava por lá, fazia a única coisa que ela sabia fazer: se trancava em sua sala e fumava como uma chaminé (o que aliás, é proibido pela lei).

Sendo assim, precisei aprender o serviço na raça… descobri que uma escola tinha três vidas… a funcional, a administrativa e a escolar. Descobri como cuidar da evolução profissional dos funcionários e professores. Aprendi a elaborar a documentação escolar de um aluno. Sofri para providenciar o pagamento dos professores… enfim… meu primeiro ano de trabalho serviu para aprender o que um secretário fazia.

Mas eu não tinha desistido de fazer uma faculdade…

Buscando uma graduação

Como secretário, logo percebi o óbvio: não há evolução na carreira. Secretário de escola morre secretário de escola… e na além disso. Então, pensei que poderia dar aulas… Oras, eu havia lecionado cerca de 8 anos em escolas de informática (ok… instrutor… mas eu levava o trabalho a sério), tinha uma boa didática… então achei que a Licenciatura seria um caminho.

Decidi então cursar Biologia. Mas não em uma faculdade qualquer. Naquele ano eu prestei a Fuvest. Depois de tanto tempo eu participaria de um novo vestibular. E desta vez sem nenhum tipo de preparo. Admito: eu não preparei de nenhuma forma para a FUVEST 2009.

Mas mesmo assim… passei. Primeiro, passei pela 1ª fase… Numa prova de 90 questões, acertei 60 delas. Nem mesmo eu acreditei que tinha conseguido isso. Na segunda fase, bom… você pode ler aqui como foi. Depois de tantos anos eu retornaria a um curso de graduação em uma universidade pública. Confesso que fiquei bem feliz.

E qual era o plano? Bom… simples: fazer a licenciatura em Biologia, para depois ingressar via concurso público na carreira de professor de educação básica. Quem sabe, com um pouco de sorte, eu poderia chegar a diretor de uma escola?

De Secretário de Escola à Gerente de Organização Escolar

Em 2011, eu estava dividido entre meu trabalho e as aulas da faculdade… as coisas iam relativamente bem e o planos pareciam bem encaminhados… Aí veio uma reestruturação nas escolas… o cargo de secretário seria extinto. No lugar dele seria criada uma função com as atribuições do secretário de escola e cumulativamente algumas outras funções administrativas da unidade. Criaram então a função de Gerente de Organização Escolar. E em princípio, todos os secretários tornar-se-iam gerentes.

Felizmente, a mudança de denominação acompanhou uma gratificação salarial. O que era bom… Ao mesmo tempo, haveria um processo de certificação onde somente os aprovados poderiam exercer a função de gerente. Apesar disso eu estava tranquilo. Tinha aprendido a fazer o serviço e as coisas funcionavam.

Será?

Bom… mais ou menos. Minha relação com minha diretora não era das melhores. Haviam alguns funcionários que não passavam de encostados. Não faziam o serviço deles e ainda atrapalhavam o serviço dos outros. E como na maioria das repartições públicas, o puxa-saquismo de alguns causava um certo tumulto.

Aí, duas coisas aconteceram… a primeira delas é que minha diretora mudou de escola. E quando isso acontece, a escola fica um tempo sem direção até que surja profissional habilitado. E surgiu… e conseguia ser pior do que a anterior. Ficou por lá cerca de três meses e causou verdadeiro caos na administração. E aí ela saiu para se aposentar.

Veio então uma nova diretora…

Descobrindo a diferença entre o céu e o inferno

A nova diretora já trazia uma fama – digamos – forte. Era conhecida por conduzir a gestão da escola com mão de ferro, sem se preocupar em criar amigos ou inimigos. E ela trouxe junto consigo um verdadeiro choque de gestão.

Preciso reconhecer… ela foi uma diretora muito competente. Mas o problema é que muita gente que até então tinha a vida tranquila me culpava pela saída da diretora anterior e ao terem suas vidas transformadas em um inferno, trataram de transformar a minha também.

Surgiram então pendências, solicitações, requerimentos e reclamações de toda ordem. E para ajudar, esta diretora tinha um enorme carinho pela diretora que havia saído de lá. E ao saber que eu era – em tese – o responsável pela saída da diretora em questão, tratou de exigir de mim nada menos do que a perfeição. E neste ramo, perfeição é um tanto complicado de se conseguir. Além disso, nem todas as instâncias administrativas vão na mesma velocidade das suas necessidades.

Mudança de planos e mais uma escola

O ano era 2012 e foi nesta época que finalmente saiu a certificação definitiva dos novos gerentes. Eu estava certificado e poderia continuar como Gerente. O problema é que minha diretora não tinha o mesmo plano para mim.

Lembro até hoje de seu ultimato: “Olha… neste momento, pela lei sou obrigada a reconduzir você à gerência. A questão é que eu vou pegar o primeiro erro que você causar e vou usar isso para tirá-lo. E aí eu colocarei alguém que seja capaz de fazer o serviço”

“Capaz de fazer o serviço”… Dói até hoje pensar nestas palavras.

Para minha sorte, naquele momento, a legislação permitia uma movimentação entre escolas. Sendo assim, eu poderia ser gerente em outra escola, desde que surgisse um convite. E o convite veio aos 45 do segundo tempo. Com isso eu poderia mudar de escola e permanecer como gerente. E estaria livre da “promessa” (para não dizer, “ameaça”) da minha então diretora de me tirar da gerência.

O adeus à biologia

A malfada aventura pela UNIVESP

Apesar de seus problemas, a nova escola foi meu momento de maior tranquilidade como gerente. As diretoras que passaram por ali não me ajudaram muito no meu trabalho. Mas em compensação, elas me davam liberdade para trabalhar em paz… então as coisas funcionavam razoavelmente bem.

Em 2014 eu tive uma grande alegria: o nascimento da minha filha Mariana. Por conta da gestação da minha esposa e também pelo fato de querer passar o primeiro ano junto com elas, eu tranquei a faculdade de biologia lá na USP. Lembram dela? Pois é…

Eu retornei no segundo semestre de 2015, mas aí surgiu uma novidade: os ocupantes da função de gerente deveriam ter nível superior no futuro e pensando nisso, o estado iria oferecer uma graduação em gestão pública pela Universidade Virtual do Estado de São Paulo… pois é… para quem não sabe, são quatro as universidades públicas estaduais: USP, UNICAMP, UNESP e UNIVESP. Esta última especializada em graduação na modalidade EaD.

Por tudo que me foi apresentado, estava claro que não seria possível conciliar o curso de biologia com o curso de gestão pública. Então, com uma tremenda frustração, eu – mais uma vez – desisti de um curso universitário. Eu, que já havia perdido minha matrícula no curso de medicina da UNICAMP, agora perdia minha matrícula no curso de biologia da USP.

E então eu esperei pela matrícula no curso de gestão pública. Que nunca aconteceu.

Ainda na UNIVESP, mas de novo na Biologia

Pois é… eu não sei qual foi a mudança nos planos, mas a exigência do tal curso de gestão pública foi abortada. Só que eu não poderia retornar à Biologia. Não preciso dizer o quanto fiquei puto com toda esta história.

Mas a questão é que no final das contas, eis que a UNIVESP ofereceu naquele mesmo ano vestibular para licenciaturas. Incluindo aí, Biologia. Não pensei duas vezes… lá ia eu para mais um vestibular… para mais uma aprovação… e mais uma vez eu era aluno universitário. Novamente em Biologia, mas desta vez na modalidade EaD.

Naquela altura do campeonato, eu já contava com mais de 40 anos de idade… sem nenhuma graduação específica e minha maior experiência profissional era no setor público. Na minha cabeça, eu já não podia correr tantos riscos… optei então em ter um diploma. Apenas isso… sem grandes expectativas acadêmicas.

Biologia… Ascensão e queda

Apesar de ter largado mão de um curso de excelência universitária, eu ainda era um chato que estudou em duas das mais renomadas universidades públicas. E o curso da UNIVESP deixava muito a desejar. Muito… para resumir, eu cursei dois anos do curso e no final – por conta da demanda de vagas – fui deslocado para a licenciatura em QUÍMICA.

E por quê isso? Bom… o curso teve uma grande evasão e com isso a universidade precisou fazer novas chamadas, várias junções de turmas e a conta nunca fechava.

O fato é que depois de tantas idas e vindas, eu larguei o curso. Simplesmente isso. Cansei da desorganização, da falta de conteúdo, dos alunos que não queriam nenhum crescimento acadêmico… apenas o bendito canudo.

Mas com isso, meus planos para ter uma graduação mais uma vez fracassaram.

De gerente à secretário de escola

Até então, as duas escolas pelas quais eu passei eram escolas de tamanho mediano, com problemas de escolas grandes. E a rotina era um pouco pesada sim… Aí veio um convite de um professor da escola que havia assumido a direção de uma escola de ensino fundamental de anos iniciais. Devo dizer que a oferta era tentadora, porque a escola sendo grande ou pequena, o salário de gerente é o mesmo. Então pensei que já era hora de ir para uma escola menor e com menos problemas e ganhar meu salário .

Então, tracei um plano: eu pediria transferência da minha escola para então me tornar gerente da escola deste outro diretor. Todo mundo dava como certa a transferência. Na minha escola, a minha diretora já buscava por um plano B e eu me preparava para ter uma vida mais tranquila.

O problema é que faltou combinar com quem não sabia sobre isso…

O fracasso da remoção

No dia do resultado da transferência, veio a surpresa… Do nada apareceu uma cidadã que era de uma outra diretoria de ensino e tinha uma pontuação maior que a minha e que se inscreveu para a mesma escola que eu desejava.

E no estado… quem tem mais pontos, chora menos na classificação. Com o resultado desfavorável, fui para uma escola que não tinha nada a ver com minha vida profissional. E pior… com a mudança, eu perdia meu cargo de gerente momentaneamente.

A questão é que naquele momento eu não poderia perder minha designação. Então corri atrás de uma outra escola que não tinha gerente. E cometi um erro parecido com aquele que cometi quando fui para aquela empresa de informática: agi no desespero e peguei a primeira oportunidade que surgiu.

E com isso, cometi mais um erro: como eu sequer cheguei a ir para outra escola, eles ficaram um pouco chateados comigo. Na verdade, eles ficaram putos com o meu desdém pela escola. Guardem essa informação para daqui a pouco. O Erro? Bom… criei desafetos… uma escola inteira.

Gerente ou culpado?

Fui para uma quarta escola em minha carreira (não perca as contas) pública. E logo de cara descobri que a escola era um poço de problemas: funcionários sem nenhuma motivação, várias pendências administrativas e de vida escolar, muita desorganização e uma equipe de gestão sem nenhum comprometimento.

Não gosto de lembrar do tempo que passei ali. Mas passei por várias situações constrangedoras. E depois de tantos desmandos, eu cansei com pouco mais de sete meses de escola. Estava cansado de uma gestão sem compromisso, de uma equipe administrativa inexistente e um verdadeiro bando de malucos que estava ali. Até aluno armado eu tive que tirar da escola.

Bom… seja como for, em meu último dia eu estava cansado e irritado com tudo e todos. Discussões ásperas com a equipe de gestão e aí eu não pensei em mais nada… simplesmente pedi minha cessação daquela escola. Lembro das minhas palavras para a diretora daquela escola: “A senhora não está em busca de um gerente… a senhora quer ter um culpado por tudo que acontece aqui. E eu não vou me presta a este papel”.

Bom… minha decisão gerou algumas consequências: a primeira delas é que – como pedi para sair – eu não poderia ser gerente em nenhuma outra escola pelos próximos dois anos. E a segunda delas… eu teria que voltar para a escola que eu – digamos – esnobei.

Eis que surgem o Diário Oficial e a Depressão

O ano era 2017 e eu voltava a ser secretário de escola. Não aquele secretário de 8 anos atrás, mas um funcionário cujas tarefas estavam limitadas apenas à atividades de apoio. Além disso, havia o ressentimento por eu ter usado a transferência apenas como uma forma de ser gerente em outra.

E pior que eu não percebi em um primeiro momento: eu não era bem-vindo lá. E bastou pouco mais de uma semana, para todos deixarem isto bem claro para mim. A gerente de lá literalmente me encostou na secretaria com uma única tarefa diária: ler o diário oficial e providenciar os recortes referentes à escola.

Eu já havia feito isso antes e garanto: é uma tarefa para – no máximo – uma hora de trabalho. Eu ainda mantinha uma postura proativa dando sugestões e tentando ajudar a gerente. Acho que meu sonho de consumo era ter alguém com bastante conhecimento para manter a papelada da secretaria em dia.

O problema é que a gerente de lá não via desta forma. Na cabeça dela, eu era uma ameaça. O cara que queria tirar o lugar dela, mesmo que eu tivesse deixado claro que eu estava impedido de ser gerente nos próximos dois anos. De isolado, passei a ser muitas vezes hostilizado. E o clima ali era bem ruim.

Assédio moral, Depressão e o primeiro afastamento

Eu estava com um problemão em mãos… eu queria trabalhar… queria ser útil. Queria que meus anos de experiência pudessem ser aproveitados. Mas dos agentes, passando pela gerente pela equipe de gestão, a regra era me isolar e me impedir de fazer qualquer coisa. Houve até uma reunião para chamarem minha atenção. “Você deve se ater às suas obrigações e não se intrometer em assuntos que não são de sua competência”.

A questão que os assuntos que – segundo eles – não eram da minha competência eram justamente as tarefas de rotina da secretaria. E isso estava me consumindo… tentei conversar na Diretoria de Ensino, tentei apelar à supervisão, mas nada adiantou.

Descaso, maus tratos, ofensas e perseguição. Eu já conhecia isso. Eu já havia passado por isso… E não estava em condições de passar por isso novamente. O nome disso é assédio moral.

Fui em busca de aconselhamento médico. A princípio, era apenas uma conversa para eu poder me sentir melhor. A questão é que saí da tal conversa com um atestado médico me afastando nada menos que 60 dias do trabalho e com uma receita médica com algumas prescrições de antidepressivos e ansiolíticos. Eu estava com um quadro de depressão profunda.

E eu nem tinha ideia disso.

Uma nova escola… uma nova chance…. ou não?

Para minha sorte, neste período de afastamento surgiu uma nova oportunidade de transferência. Eu poderia ir para outra escola…. Não poderia ser gerente, mas poderia sair daquela escola. E já que eu seria secretário, pensei que poderia sê-lo em uma escola perto de casa. Assim, eu economizaria com transporte e alimentação.

Mas eu não queria cometer os mesmos erros de antes. Então tratei de pesquisar para encontrar uma escola tranquila. Em uma delas fui até lá e conversei com a direção da escola. Expliquei toda minha situação e disse que eu queria apenas trabalhar. A diretora me tranquilizou, me apresentou à gerente e disse que a escola estaria de portas abertas para mim.

Então, para não ter que voltar à escola anterior, permaneci em afastamento médico até o resultado da transferência.

Nova escola… novas atribuições?

Estava feliz por poder recomeçar… estávamos em agosto de 2017 e eu tratei de ser o mais solícito possível. Fui apresentado aos funcionários e as instalações da escola. Designaram-me uma mesa e meu espaço de trabalho.

E então, veio minha gerente com minhas atribuições: uma lista de pendências que deveriam ser localizadas no Diário Oficial…

Aquilo foi um banho de água fria. Depois de tudo o que eu tinha passado… depois de tudo o que eu tinha explicado a eles… tudo o que eu faria ali na nova escola seria a leitura do Diário Oficial do Estado.

Num primeiro momento, a gerente me disse que com o tempo eu teria outras tarefas, mas o tempo foi passando e nada surgia de novo para mim. E eu percebia que ao mesmo tempo, os outros funcionários sempre estava sobrecarregados de coisas para fazer. Tratei de conversar com a gerente e ela me explicou que ali já existia uma divisão de tarefas muito bem definida e que eu poderia ser útil apoiando em algumas tarefas. Mas que ela reorganizaria tudo para que eu fosse incluído nas tarefas… mas isso nunca aconteceu.

Aquilo passou a me incomodar. E eu comecei – literalmente – a me meter onde não era chamado. Quando via alguém se aproximar ao balcão eu me antecipava para o atendimento na esperança de fazer algo. As vezes dava certo, outras vezes não…

A censura, a insônia e novo afastamento

Alguns professores descobriram que eu havia sido gerente passei a tirar algumas dúvidas de vida funcional deles. Não demorou a perceberem que eu sabia muita coisa e que muita coisa poderia acontecer de forma mais célere por ali.

Isto não foi muito bem visto pela equipe e mais uma vez, passei a ser – não exatamente hostilizado – mas a ser ignorado. O que é pior… Paralelo a tudo isso, eu continuava com meu atendimento médico. Ainda tomava meus remédios e eles funcionavam… mas nem sempre. Minhas crises de insônia se agravaram, passei a ter crise de choro e me isolava cada vez mais, inclusive dentro de casa.

Insõnia
Insõnia

A situação não era boa novamente. Eu me arrastava para ir a escola, porque sabia que meu dia começava às 08h00 e terminava as 09h00 e que no restante do tempo eu deveria preencher com o absoluto vazio.

Depois de 6 meses nesta vida, o médico resolveu me afastar novamente do trabalho. Voltei a ficar em casa e com isso eu me sentia ainda mais imprestável. Mas ao menos em casa, eu tinha o UBQ. E isso era um tremendo conforto.

Investi meu tempo livre justamente aqui no UBQ. Passei a fazer muitos vídeos, a investir em podcast e o projeto de profissionalização do UBQ surgiu da minha falta de perspectiva profissional e do meu isolamento social cada vez maior. Fiquei em afastamento por quase 1 ano e no começo de 2019 eu retornaria ao trabalho. A minha suspensão de 2 anos para o cargo de gerente chegava ao fim e tudo que eu queria era trabalhar.

A gota d’água

Mas em meu retorno à escola, pouca coisa mudou. Continuei com o Diário oficial e a título de “Prêmio de Consolação” a gerente me deu uma contagem de tempo de um professor que inclusive estava de saída da escola. Foi algo tão somente para eu parar de reclamar que não tinha o que fazer. E eu continuava isolado de tudo e todos.

Aí duas coisas aconteceram em dois dias consecutivos. Eu resolvi fazer minha documentação de vida funcional por conta própria. Eu queria receber algumas gratificações atrasadas e pensei em agilizar as coisas. Fui advertido pela gerente que não era minha competência fazer aquilo. Mas ao mesmo tempo eu via os outros funcionários fazendo exatamente o mesmo que eu havia tentado fazer.

Minhas reclamações foram em vão…

No dia seguinte consegui fazer um atendimento no balcão para instruir uma mãe sobre matrícula. Fiz aquilo que já vinha fazendo a 10 anos. Não é querendo me gabar, mas eu prestei as informações corretas e necessárias à mãe. O problema é que no meio do atendimento, um dos funcionários interviu na história e literalmente me desautorizou sobre tudo o que falei.

Ao dispensar a mãe, aquele funcionário veio me dar um sermão. Uma bronca mesmo. Ele – que não era o gerente, tampouco meu superior – me deu um sabão enorme.

E aquilo era demais pra mim… Lembro que peguei minhas coisas pessoais e me retirei da escola. O cidadão ainda tentou correr atrás de mim para tirar satisfações, mas eu realmente estava a ponto de explodir. E fiquei chorando em casa por uma semana. Não podia desistir, mas não podia continuar.

A vida em Licença-Saúde

Claro que fui ao meu psiquiatra. Ele atestou minha total falta de condições para o trabalho naquele momento e aí começou uma série de afastamentos que perdurou do início de 2018 até o final de 2020. Eu até ensaiei algumas tentativas de retorno. Uma delas ficou clássica… eu entrei no carro e fiquei parado na frente da minha casa por duas horas, sem coragem de ir para a escola.

Em outra, tive uma crise de pânico no meio da rua. Voltei para casa apalpando as paredes das casas para conseguir retornar. Fui várias vezes ao médico, troquei medicação, ajustamos dosagens, fiz terapia… pouca coisa funcionou. E a cada novo afastamento, uma nova sensação de derrota.

Os últimos anos da minha “carreira” profissional simplesmente não existem. Eu tenho depressão, transtornos de ansiedade e – como aparece em todos os meus atestados – sensação de ruína e desorganização conceptual. Eu me sinto exatamente desta forma… parece que tudo afundou… parece que nada funciona… e eu não tenho a menor ideia do que fazer.

Covid e o home office

Estamos no início de 2021. Como quase todo mundo sabe, vivemos em 2020 uma situação de pandemia e isolamento social. Por conta disso, muita gente se afastou do trabalho e no estado não foi diferente. Pessoas dos grupos de risco foram afastadas e colocadas em home office.

E eu sou obeso mórbido… talvez hipertenso também. O fato é que sou grupo de risco e me encaixo na política do home office. Então tomei uma atitude unilateral, sem consultar meu médico, aliás… e espero que ele me perdoe por isso: eu decidi que retornaria ao trabalho, ainda que em home office. Meu contato com a escola de dá por meio de comunicação eletrônica (e-mail).

E adivinhem só quais foram as minhas atribuições determinadas pela escola? Pois é… não precisamos pensar muito, não é mesmo.

Diário Oficial do Estado... Meu carma há alguns anos
Diário Oficial do Estado… Meu carma há alguns anos

Mas, espere… uma nova esperança?

Eu confesso que no final do ano, tive esperança de mudanças. Saiu um novo processo de transferência. E eu me inscrevi para 19 escolas diferentes. Então acredito que eu sairei da minha atual escola. E irei recomeçar em uma nova escola. Pensei até que poderia ser gerente novamente. Afinal, das 19 que escolhi, 15 delas não tinham gerente designado.

Eu disse tinham? Disse…

Logo após a inscrição para transferência, saiu uma nova certificação para gerentes. E muita gente que não podia ser, agora pode. E lendo o diário oficial agora do mês de janeiro, vi uma a uma daquelas escolas que escolhi receberem um novo gerente designado.

Ou seja, não importa para onde eu vá… eu não terei chance em ser gerente em nenhuma delas. E qual é o meu medo? De recomeçar todo este ciclo novamente… Criar novos desafetos… ser mais uma vez encostado e ficar condenado à leitura do Diário Oficial.

E ter a certeza de que eu nunca tive uma carreira ou uma profissão… só tive trabalhos que pagavam um salário para eu pagar as contas. E nada mais. Nenhum prazer, nenhum contentamento, nenhuma realização…

Apenas um senhor de 46 anos de idade, sem formação acadêmica definida e sem uma profissão definida que todos os dias faz a mesma tarefa. Lê o maldito Diário Oficial do Estado.

Concluindo…

Pois é… ficou um texto gigante… não é mesmo? Escrevi estas linhas em várias noites de insônia que tive nestes últimos dias. Queria registrar em algum lugar o óbvio: não sou nem devo servir de exemplo para ninguém… absolutamente ninguém, seja profissionalmente ou academicamente.

Não tenho uma formação… não tenho uma profissão… tenho apenas uma coleção de anos que trabalhei sem sentido, nem objetivo, apenas cumprindo tarefas burocráticas que em nada inspiram ou causam a diferença na vida das pessoas. E nos últimos anos isto piorou, porque eu me sinto um absoluto inútil.

Pelo menos aqui no UBQ, ainda sou o editor… ainda posso inspirar pessoas aqui. E pensei seriamente que aqui poderia ser um dia o meu ganha pão. Realmente eu queria que isto aqui causasse a diferença para alguém.

Mas… oras… sinceramente? Duvido que alguém terá paciência de ler tudo o que eu escrevi aqui. Não sou capaz nem de servir como mal exemplo para as pessoas.

Futuro profissional? Ora… são apenas algumas divagações de um homem frustrado e fracassado aos 46 anos de idade.

De qualquer forma, se você leu até aqui, obrigado…

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Publicado em:Crônicas,Noites de Insônia,Opinião

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