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Um encontro no Nada

O que menos importa agora são as razões pelas quais um fiscal da Anvisa interrompeu a partida entre Brasil e Argentina pelas eliminatórias da Copa do Catar. Nem tampouco as regras erráticas de combate ao Covid. Hoje houve uma aula de América Latina.

Mas há os que ainda refutam a ideia de que as nações deste continente se formaram sob o que Weber chamou de Patrimonialismo: aquele modelo de exercício de poder que não difere o que é público do que é privado. Weber se referia aos estados absolutistas europeus mas por aqui as nações o elevaram a um estado de arte. Tal situação redundaria na irracionalidade da justiça e tributação, o que perturbaria a calculabilidade (termo dele) da economia e por extensão das relações comerciais, baseadas na confiança. Por conta dessa esculhambação estrutural, as pessoas tiveram que se defender.

Desta necessidade de defesa nasce o “compadrio”, onde se estabelecem relações de confiança mútua (até certo ponto) entre os contratantes que se entenderiam à margem da lei. Pois é. O problema é esse “até certo ponto”, atualmente definido como “até a página dois”. Da emergência de saber o que fazer a partir da página três, deu-se no Brasil, por exemplo a cultura do “jeitinho”, que certamente tem seus sinônimos em outros países latino-americanos.

O que tivemos entre as confederações de futebol do Brasil e da Argentina foi um tratado destes conceitos acima, mas que redundou numa comédia de erros que só poderia virar a ópera-bufa que virou. Tomar para si um conceito de um valor que de tão imenso é melhor ser chamado de imaterial como o do clássico entre Brasil e Argentina é o pecado original das Confederações. Esta partida é universal e tanto é assim que hoje simplesmente nos explicou em nossa insignificância civilizacional.

Nelson Rodrigues dizia que o Fla-Flu nasceu quarenta minutos antes do nada. Ninguém consegue entender o conceito do que é “nada”. Mas o que aconteceu hoje foi pior que a pancadaria, a cera, a milonga, a malandragem, os policiais com escudo protegendo os batedores de escanteio, os fogos de artifício no hotel do adversário na noite anterior. Se o Fla-Flu estaria a uns minutos antes do nada, hoje Brasil e Argentina neste nada se encontraram. Só não nos envergonharam.

A gente já está acostumado.

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Publicado em:Crônicas,Opinião,Uma Copa Qualquer

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