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Barcelona

Aquele vinho deveria servir para a noite do Dia dos Namorados. Perguntei ao moço da loja e ele garantiu. Era um vinho comprado em loja de vinhos e não arrancado de uma prateleira de supermercado. Judy sempre detestou vinhos de supermercado e eu perguntava sempre aos moços das lojas de vinho se o que eu estava levando era de supermercado e eles diziam que não, que era “exclusivo”, que conheciam o importador e davam um sorriso que hoje eu vejo que podia ser comiseração – que é diferente de “pena” pois significa “sofrer junto” ou algo parecido.

Cheguei e ela estava no banho. A mesa não estava posta, e na cozinha a tampa do fogão estava abaixada. Só se ela fosse cozinhar depois, junto comigo. Mas era meio tenso porque eu não reconhecia os temperos, só a pimenta do reino e ela aplaudia quando eu dava o frasco acertado de primeira. Era um aplauso obviamente de ironia. Um dia ela pediu cardamomo. Perguntei “carda o quê?” . Ela foi se esbarrando e pegou o frasquinho do carda qualquer coisa. E disse às vezes você me desanima. Vou fazer porque o Sávio gosta.

Sávio era um professor bem graduado dela, e ia com a esposa, que por sua vez era professora também, da mesma área. Eu não entrava nos assuntos deles mas eram bem simpáticos comigo. O professor Sávio conversava comigo na hora dos charutos – eu tinha (tenho) enxaqueca com charutos, mas fumava para acompanhá-lo enquanto as moças lavavam a louça.

Naquele dia o jantar era só para nós dois e entendi a pouca formalidade. Ela desceu do banho, eu estava pondo a mesa, do jeito que ela gostava. Mas pelo jeito que ela olhou parece que errei, como sempre. Ela perguntou se eu queria tomar banho. Eu disse que tomaria quando ela fosse cozinhar e que poderíamos começar. Coloquei o queijo – a fatia inteira, pois ela disse que chamaria a polícia caso eu picasse novamente o queijo em cubinhos.

Ela deu um suspiro enfastiado e se dirigiu à cozinha. Acompanhei-a. Enquanto ela pegava as taças eu pegava o saca-rolha. Ela pousou as taças na pia. Me olhou muito seriamente.

“Eu vou para Barcelona”, e continuou me fitando com a expressão neutra.

“Quando?”

“Semana que vem.”

“E volta quando?”

“Talvez em dois anos.”

Tirei o saca rolha.

“Mas e eu?”

“Faz o que você quiser, só não vá a Barcelona. E se for não me avise.”

“O Sávio vai?”

“Deixa de ser idiota. Ele nem tem a ver com isso.” E continuou, “antes de pensar em fazer drama, entenda que eu não estou te trocando por outra pessoa. Estou te trocando por Barcelona.”

Eu não soube muito bem o que dizer. Então ela disse:

“Vamos pedir uma pizza.”

“Mas esse vinho é exclusivo”, tem gente que aguenta humilhação só se for muita. Ela nem tirou os olhos do teclado,
“Para esse vinhozinho uma pizza tá mais que bom.”

Eu me lembrei por um átimo de segundo que me ensinaram no handebol que o arremesso tem mais força quando a gente usa todas as articulações do braço – ombro, cotovelo e punho – em um movimento coordenado e que a força nasce do movimento resultante disso. Foi assim que fiz ao agarrar a garrafa pelo gargalo como um martelo e batendo com ela na quina da pia com uma força certamente bem maior que a resultante das articulações do braço.

O chão branco da cozinha se coalhou de cacos e de vinho. Olhei para ela que me olhava muito pálida e assustada e a intensidade do seu tremor se media pela respiração igualmente trêmula e ofegante. Olhei para ela e disse “boa viagem” e saí dali para nunca mais vê-la.

O correr de pouco mais de vinte anos me fez esquecer inclusive do rosto dela.

Dia desses eu estava vendo um programa de esportes enquanto almoçava num boteco. Na TV, os comentários sobre o time do Barcelona que perdera para um tal Celta de Vigo e que está virando freguês do Real Madrid. Os comentaristas bradavam sobre o que diziam ser uma decadência absurda.

Limitei-me a olhar de lado para depois sorrir discretamente e então brindar à televisão com um copo de tubaína com gelo, mais barata que vinho de supermercado.

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Publicado em:Crônicas,Opinião,Redond'Ilha

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