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Equinócio da Primavera

Um tempo depois, quando a gente já namorava, Lau confessou uma coisa – eu usei o termo “confessar” porque ela o usou: “Vou confessar uma coisa: sabe em que dia eu gamei em você? No dia em que eu lhe disse meu nome e você não me perguntou se meu nome era da minha avó!”

“Eu disse que era um proparoxítono.”

“Sim, eu me lembro. Ao invés de me perguntar algo como ‘de onde tiraram esse nome esquisito?’, você comentou isso. E depois fez essa cara que você faz quando pensa algo que não diz a ninguém.”

“Foi? Que cara? A de nada?”

“É, a de nada, olhando para o nada. Acho um charme!”

A cara de nada olhando para o nada, naquele momento da conversa sobre o nome dela, surgiu porque eu me dei conta de que era um termo proparoxítono mas que não tinha acento. Era Laudina, assim, com o “a” tônico desguarnecido do acento agudo. Ela ficava brava quando lhe perguntavam do acento e era pior quando o liam e pronunciavam “Laudína”. De todo modo era uma discussão meio sem sentido pois todos a chamavam de Lau, até a mãe dela.

Estudávamos na mesma sala e por vezes ficávamos estudando na casa de um ou de outro. Quando eu queria outra coisa que não estudar, tentava fazer cócegas nela. Ela nunca ria.

“Você não sente cócegas, menina?”

“Sinto. Mas não conto onde.”

“Então vou descobrir!”

Às vezes dava certo e aquilo acabava em adolescências, às vezes não dava, e a vida seguia. Foi um namorico de colégio, que terminou antes das férias de julho. Ela passaria o mês fora, com os pais. Em nosso último encontro antes de sua viagem ela me abraçou na hora de ir embora, e disse firme:

“Hoje é nosso último dia.”

“Eu sei. Depois só em agosto.”

“Não, eu estou falando que é nosso último dia juntos nas nossas vidas.”

Naquele momento eu não fiz cara de nada. Fiquei em silêncio e fiz cara de tudo. Ela chorava, as lágrimas lhe caíam copiosamente e ela simplesmente apertou meu queixo com o indicador esquerdo (ela era canhota), que era um gesto de carinho que ela me fazia desde que éramos só colegas de escola. Virou-se e entrou em sua casa.

Passei julho tentando entender o que se passava. Sei que ela não estava em casa, portanto não adiantava escrever, nem ligar. Vivi meus dias com um incômodo no peito, além de uma falta de apetite nunca vista. Perdi peso. Mas eu saía para caminhar todo dia para tentar aplainar as ideias. Talvez tenha emagrecido por isso.

Bem, Laudina (pronunciem sempre Láudina, ok?) não voltou de férias e a explicação que todos tínhamos era a de que seu pai se quedara doente e por lá ficara – a cidade natal do pai era um balneário praiano. A explicação que meu pai me dera foi que meu “sogro” roubou os sócios e agora se refugiava, não na praia mas num lugar incerto. Papai ainda arrematou com um “olha do que você se livrou!”, mas obviamente eu achava aquela ideia do pai da Lau ter fugido como um ladrão era só uma bravata do Papai para eu tocar minha vida. Enfim…

O segundo semestre correu com o que eu identificaria depois como um travo amargo na garganta – senti isso também quando tomei vinho pela primeira vez. Todo dia eu acordava com a lembrança dela e daí advinha um peso no corpo e uma falta de força para me levantar. Passei a rezar de noite para pedir que o despertar fosse em paz. Assim terminei o semestre.

No ano seguinte teve alunas novas na minha sala. Uma veio me perguntar algo sobre a aula de Redação. Ela se chamava Marcela. A primeira coisa que pensei ao ouvir seu nome era que se tratava de um parxítono ordinário. Não fiz piada, só queria que ela fosse embora. Poucas semanas depois do início das aulas chegou uma carta da Lau na minha casa. Sem endereço no remetente, onde estava escrito apenas “Lau”.

Abri a carta ainda com a mochila nas costas e ali constava o seguinte:

“Sinto mais falta de você agora, ainda mais nesta época de quaresma onde me lembro tanto de nós dois. Lembra que você me fazia dormir com o negócio do Domingo de Páscoa? Não tenho a menor ideia da razão, não decorei, você falava sempre muito rápido. De propósito eu sei. Quero pensar que você não falava devagar para que eu adormecesse tentando decorar.”

“Vou me lembrar de você como o único que conseguiu me fazer dormir com um acalanto, ainda que este fosse o mais esquisito do mundo. Com carinho, Lau.”

Li uma vez e guardei na mochila para ler de novo mais tarde. Depois guardei numa agenda onde guardava tudo da gente. Essa agenda foi ficando na gaveta do meu quarto até que num dia distante, próximo ao meu casamento, minha mãe perguntou se podia jogar fora.

“Por que, Mãe?”

“Agora você já escolheu sua mulher, né?”

“É.”. E fizemos um silêncio ao telefone, certamente devo ter feito a cara de nada e minha mãe mudou de assunto. A agenda deve estar na gaveta até hoje, nunca conferi o que foi feito dela.

Fiquei me repetindo no almoço do dia em que chegou a carta a explicação-mantra citada por Lau: “O primeiro Domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio de primavera no hemisfério norte.” Não é bem a explicação de porque a data é móvel mas sim de como é calculada. No começo ela questionava se não era por conta da terça de carnaval. Eu disse que o Carnaval era calculado “para trás”, contando-se quarenta e tantos dias a partir do domingo de páscoa até a terça-feira gorda. Na época eu devia saber mais precisamente, acho que não devia dizer “quarenta e tantos”. Eu era um adolescente muito pernóstico para me permitir dizer este “… e tantos”. Se não me lembro hoje é porque devia chutar qualquer número para não deixar barato com o “quarenta e tantos”. Lau não percebia o chute.

Ou se percebia, não falava.

Mas ela pedia, com voz fina de sono, deitada no meu ombro, para repetir a explicação. Dizia “fala o negócio do Domingo de Páscoa”! Eu falava “o primeiro Domingo”, etc. Ela se ria de leve, depois dizia “de novo!” e eu repetia e ela ria, até que eu percebia que ela não ria mais depois que eu acabava de explicar e a ouvia ressonando em meu ombro e aquilo era a sensação de se ter o mundo à disposição.

Alguns dias atrás ela me achou no Face e solicitou amizade. Assim, sem mais nem menos uns trinta anos depois. Fiquei feliz por vê-la, por constatar um pouco de sua vida. Duas noites depois ela me mandou um recado pelo Messenger e ouvi quando chegou:

“Oi! Tô sem sono, me ajuda?”. Eu já sabia o que era.

“Ajudo! Lá vai… O primeiro Domingo depois da primeira lua cheia depois do Equinócio de Primavera no hemisfério norte.”

Ela respondeu rápido: “Nããããooo!! Assim nãããão!! Quero ouvir sua voz!!! Preciso MUITO dormir!”

“Mas eu não sei mandar por voz por isso aqui!”

“Aperta nesse microfoininho que vai aparecer a instrução.”

Entendi. Apertei o microfoninho. A primeira mensagem foi errada. Ela mandou uns quatro emojis de choro. Acertei na segunda, foi direitinho. Ela respondeu com um coração, depois com um “Huuuummmm!!!”. Aquilo me deixou animado. Animado a ponto de escrever:

“Agora que eu te dei por escrito e você pode decorar como calcular o dia da Páscoa, bem que poderia me dizer onde tem cócegas né?”

Adormeci esperando que ela me respondesse. Qual nada. Certamente ela dormira me ouvindo. Devia eu ter pensado antes que ela só queria de volta o acalanto mais esquisito do mundo.

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Publicado em:Crônicas,Opinião,Textões do Facebook

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