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Filó

Na primeira Copa marcada pela tirania, teríamos outra 44 anos depois, um brasileiro sagrou-se campeão do mundo antes daqueles de 58. Na Itália em 34, onde um brazuca virou azzurra, falaremos dele… Filó.

Anphilóquio Guarisi Marques era filho de um português – talvez por isso começou a jogar pela Portuguesa – e de uma italiana. Depois passou pelo Paulistano e pelo Corinthians, sendo campeão nestes times. Era então conhecido como Filó (ninguém conseguia falar seu nome macarrônico) e se destacava nestas terras, até que a Lazio o contratou, sendo por lá chamado por Guarisi.

Lá estava quando se deu a Copa de 1934. Mussolini, o sanguinário ditador italiano, trouxe a Copa para seu país com a intenção de mostrar sua força ao Mundo, mais ou menos como faria seu colega alemão, Adolf Hitler, dois anos depois nas Olimpíadas de Berlim. Mussolini queria um time imbatível, e para isso exigiu o que de melhor havia em seu país para montar sua seleção. Contou com naturalizados, como Filó e uns argentinos na mesma condição.

A FIFA, sem querer querendo, dificultou um pouco, exigindo que a Itália, pela primeira e única vez na história, participasse das Eliminatórias mesmo sendo país sede. O Uruguai devolveu a desfeita da Itália que não quis ir para lá em 1930 e se tornou a única seleção campeã que não jogou a Copa seguinte. A Argentina, atual vice campeã, mandou o time reserva por questões internas – essa gente briga por tudo o tempo todo, faz tempo.

O sistema de disputa foi pensado para facilitar para todo mundo que fosse italiano: as 16 seleções jogariam um mata-mata, e a Copa começou nas oitavas. O Brasil começou perdendo da Espanha e dali mesmo já viemos embora. A Espanha pegaria a Itália nas quartas. O time espanhol era uma máquina. E a Espanha era governada por outro ditador, Francisco Franco. Os atletas espanhóis devem ter pensado “eles tem um tirano, nós também temos, então vamo que vamo”. Um raciocínio que talvez fizesse sentido se fosse campo neutro, mas eles estavam na Itália.

Aos jogadores italianos, que receberam no vestiário um bilhete de Mussolini escrito “Vitória ou Morte” não restou outra alternativa a não ser baixar o sarrafo nos espanhóis, sob o olhar compreensivelmente cego do juiz – naquele tempo não tinha VAR mas se tivesse daria na mesma. A partida terminou 1×1 na prorrogação. A decisão nos pênaltis só foi prevista para a Copa de 78 na Argentina. Tiveram que disputar outro jogo, que foi no dia seguinte mesmo, até para garantir que os titulares espanhóis estropiados – foram sete – jogassem caindo pelas tabelas. A Itália ainda assim ganhou só de 1×0, gol de Giuseppe Meazza (hoje nome do estádio de Milão) e seguiu em frente, desta vez tranquila rumo ao título, já que o recado estava dado.

Guarisi, nosso Filó, comemorou o título mas voltou ao Brasil um tempo depois e terminou a carreira sendo campeão no time que sempre deveria ter sido o dele: um tal de Palestra Itália.

Copa do Mundo de 1934

  • Sede: Itália
  • Período: 27/05 a 10/06/34
  • Campeã: Itália; Vice: Tchecoslováquia
  • Colocação do Brasil: 14º lugar

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Publicado em:Crônicas,Entretenimento,Uma Copa Qualquer

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