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Leônidas (Claro!)

Antes de mais nada um esclarecimento: Leônidas da Silva nunca se arvorou para si a invenção do gol de bicicleta, inventado pelo espanhol naturalizado chileno Ramón Asla. Nosso personagem de hoje oficialmente fez três gols assim, sendo dois deles pelo São Paulo. Não é pouco. Há quem diga que ele reinventou o lance, seja lá o que queira dizer isso. Talvez algo como fizeram Ibraimovich, que marcou assim uma vez da intermediária e Cristiano Ronaldo, cujas costas ficaram acima das cabeças dos adversários numa pintura que ele cometeu de bicicleta.

Artilheiro e melhor jogador da Copa de 38, na França ele só não fez chover. Nem precisava. No primeiro jogo, contra a Polônia, um pé d´água tsunâmico caiu em Estrasburgo. Pelo fim do segundo tempo ele tirou a chuteira, quem sabe para tirar um pouco da água que a enchia, quando o goleiro polonês bateu um tiro de meta fraco e a bola sobrou generosa para ele. De chuteira na mão, num sem-pulo, Leônidas arrematou para o gol e marcou. Poderia ser o inventor do gol descalço, mas gol assim até este que vos fala fez, mesmo chamando a bola de Vossa Excelência.

A Copa de 38 foi para a França meio no tapetão, afinal Jules Rimet queria fazer uma Copa em sua casa. Os outros candidatos eram a Alemanha de Hitler – mas ia ficar chato a Copa ir de um fascista para um nazista, e a Argentina, que resolveu achar que haveria uma alternância entre continentes, coisa que absolutamente ninguém tinha prometido. Assim, em resposta, os hermanos não foram à França, e também os uruguaios, que em solidariedade repetiram a birra de 34 e, querem saber duma coisa?, nenhum time das Américas quis ir, menos Brasil e Cuba. Desta forma, além de nós e dos cubanos, a única seleção não européia a ir para a França em 38 foi a das Índias Orientais Holandesas – hoje Indonésia.

A Áustria também não foi, mesmo estando classificada. O único jeito dos jogadores austríacos jogarem seria se disputassem pela Alemanha, já que Hitler anexou a Áustria (aliás seu país natal) meses antes da Copa. O selecionado alemão, que trazia na camisa uma suástica no lugar do escudo, foi talvez o mais fraco de todos os tempos, caindo já no primeiro jogo contra a Suíça. Os melhores atletas certamente estavam servindo ao exército. Quanto à Áustria, foi mantida na tabela depois de sua vaga ser oferecida à Inglaterra que se recusou pela terceira vez a participar de uma Copa do esporte inventado por eles, certamente com medo do vexame. O jogo da Áustria enfim, contra a Suécia foi vencido por esta no único W.O. das Copas.

O Brasil seguiu nas quartas contra a Tchecoslováquia e empatou em 1×1, num jogo em que quebramos metade do time adversário inclusive mandando dois tchecos para o hospital (é verdade). No jogo extra (ainda não havia disputa de pênaltis), ganhamos de 2×1.

Aí aparece pela primeira vez na história a burric… perdão, a infelicidade de um técnico brasileiro. Ademar Pimenta resolveu poupar Leônidas na semifinal, contando que passaríamos fácil pelo horroroso time da Itália, que era só o campeão do mundo. Levamos a esperada tunda, e na decisão do terceiro lugar a Suécia estreou a freguesia contra nós.

O terceiro lugar fez o mundo nos conhecer e se maravilhar com Leônidas, que, vocês já sabem, recebeu de um jornalista francês a alcunha de Diamante Negro, talvez impensável nos corretinhos dias atuais. Este apelido batizou um chocolate que dura até hoje e cujos cristais de açúcar grudam nos dentes.
Leônidas fez 37 jogos com a Seleção, fazendo impressionantes 37 gols.

Encerrou a carreira no São Paulo, onde chegou ao custo de 200 contos de Réis depois de passar oito meses preso por falsificar o atestado de reservista. Para se ter uma ideia, o Ford Luxo, de longe o carro mais caro do país à época, custava inacreditáveis… 3 contos de Réis.

Copa do Mundo de 1938

  • Sede: França
  • Período: 04/06 a 19/06/1938
  • Campeão: Itália; vice: Hungria
  • Colocação do Brasil: 3º lugar

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Publicado em:Crônicas,Entretenimento,Uma Copa Qualquer

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