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Jô, um beijo dos gordos!

Vez ou outra o UBQ se depara com notícias não tão boas… algumas bem ruins até. A notícia de hoje é ruim: morreu nesta madrugada, José Eugênio Soares… o Jô Soares, aos 84 anos. Jô era humorista, apresentador de TV, escritor, dramaturgo, diretor teatral, ator e músico brasileiro. Um talento natural… e mais uma perda irreparável para a cultura brasileira. E aqui no UBQ, não há a intenção de noticiar os fatos. Mas é inegável a minha intenção de homenagear Jô… talvez uma homenagem tardia, mas em minha opinião, justa e merecida.

Sua carreira na TV começou em 1960 e eu nem era nascido. Fez história no programa “Família Trapo” onde deu vida ao atrapalhado mordomo Gordon. A estrela era Ronald Golias (no papel de Bronco), mas Jô roubava a cena quando presente.

Jô viveu o mordomo Gordon em “Família Trapo”

Não tenho como falar da carreira do Jô nas décadas de 60 e 70 sem recorrer a outras fontes. Então falarei daquilo que me lembro… as noite de segunda-feira nos anos 80, quando estava no ar com o programa “Viva o Gordo” e seus personagens indefectíveis: Reizinho, Capitão Gay, Araponga, Vovó Naná, Dom Casquera, Padre Carmelo, Coronel Pantoja (numa inesquecível parceria com Chico Anísio), Bianor e tantos outros que a memória agora me trai… Eu tinha sérios problemas para assistir seu programa. Afinal, eu ainda era uma criança e minha me mandava pra cama logo depois da novelas das oito. Conseguia assistir ao primeiro bloco e vez ou outra num feriado prolongado, conseguia ver o programa na íntegra.

Em "Viva o Gordo", alegrando as noites de segunda-feira
Em “Viva o Gordo”, alegrando as noites de segunda-feira

Jô foi para o SBT e seu programa de humor já não tinha o mesmo frescor. Mas não por falta de talento ou por esgotamento da fórmula. É que naquela época, Jô começou seu Talk-Show, entrevistando não só celebridades, mas políticos, pensadores, curiosos e toda sorte de pessoa interessante que merecesse atenção. E lá por volta de 1993, 1994 eu era audiência cativa do programa. Aliás, mesmo depois, nos tempos de faculdade, eu nunca deixava de ir para cama sem ele.

Como não lembrar de seus bordões? Como esquecer de seus rompantes filosóficos? Eu gosto de me lembrar que ele sempre dizia que se um dia a Caneca dele dissesse “Boa noite, Jô!” e ele não se afetaria… apenas diria: “Boa noite, Caneca!”.

Os mais novos talvez se lembrem apenas de seu programa de entrevistas, o Programa do Jô, exibido na TV Globo entre 2000 e 2016. Mas, ele vinha exercendo o ofício de apresentador desde a década de 80, quando começou a apresentar – além de seu humorístico “Veja o Gordo” – o seu talk-show “Jô Soares Onze e Meia”. E era um fato, nunca começava as onze e meia. E além dele, o quarteto… a banda que animava os intervalos e brilhavam na coapresentação. Começou como quarteto (com Miltinho, Bira, Rubinho, Edmundo Villani-Côrtes), virou quinteto com a saída de Edmundo e a entrada do maestro Osmar, além da entrada do saxofonista Derico (um show à parte no programa). Com a morte de Rubinho em 1998, o quinteto recebeu o guitarrista Tomati e por fim se tornou um sexteto, com a entrada do trompestista Chiquinho. Em seus últimos anos de existência, o sexteto voltou apenas a ser um quarteto.

Aliás, talvez tenha sido este um dos motivos do final do programa. Sofrendo com a concorrência de outros canais, e também com crise de audiência, o programa passou a sofrer cortes orçamentários, sem contar a perda de seu único filho – Rafael – em 2014. Pesaram também os problemas de saúde que começaram a surgir ainda em 2014. Pesava a idade, mas não perdia seu brilho. Mas aos poucos, Jô começou a se despedir das noites conosco.

Jô Soares em sua despedida do "Programa do Jô"
Jô Soares em sua despedida do “Programa do Jô”

Em paralelo a isso, a carreira de diretor teatral, dramaturgo, escritor. Um verdadeiro polímata… Como escritor, talvez as obras “O Xangô de Baker Street” e “O Homem que matou Getúlio Vargas” tenham sido suas obras mais famosas. Chegou a ser eleito para a Academia Paulista de Letras. Não houve tempo para se tornar um imortal da ABL, mas creio que seria uma questão de tempo.

Tempo que agora faltou a Jô… ele teve uma carreira prolífica, versátil, multifacetada e fez a alegria de milhões de pessoas. Seja com seus personagens, seja com seu talk-show, seus livros, suas peças… um dos maiores gênios da comédia.

Um beijo do gordo!
Um beijo do gordo!

No final da noite, ele sempre se despedia com o seu “Beijo do Gordo”. Um beijo que nos faz falta… e agora, chegou a nossa vez… Jô, um beijo para você… de todos os gordos do UBQ. Você nos fará falta.

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Publicado em:Crônicas,Entretenimento,Noites de Insônia

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