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A banda Pholhas e o álbum Pholhas (1977)

Buenas! Esse período isolado de tudo e todos me abriu a cabeça pra tantas novas sonoridades que eu nem imaginava que existisse no meu próprio quintal. Nasci aqui e tinha a audácia de imaginar que conhecia algo sobre música brasileira. A cada dia de quarentena levo um tapa na cara diferente do modo aleatório do YouTube e dos principais tocadores de streaming. E hoje temos a banda Pholhas e o álbum Pholhas (1977).

Fala Sério

Esses dias me peguei ouvindo coisas que me levaram pra minha mais tenra infância. Uma memória quase disforme, quase uma bruma, algo até então esquecido. Depois, conversando com minha mãe tive “uma luz” de onde conhecia ou achava conhecer aquilo. Era tudo o que ela ouvia em casa quando eu era pequeno.

Em geral tinha MPB de todas as vertentes, os bambas do samba e muito rock’n’roll brasileiro, um verdadeiro “balaio de gato” sonoro. Hoje consigo ver que meu arcabouço musical é ainda mais profundo do que imaginava.

Uma das minhas descobertas desse período foi cair de cabeça no rock psicodélico brasileiro, chegando no rock progressivo dos anos 70, mas não no progressivo de Pink Floyd, King Crimsom, Yes e afins, mas no progressivo de Mutantes, O Terço, Moto Perpétuo e etc.

Até que em uma conversa de “troca de figurinha” musical com um grande colega conhecedor dessa vertente, ele me solta a seguinte pedrada:

“Cara, você já ouviu o disco psicodélico dos Pholhas?”

Eu de cara mandei aquele “fala sério”. Incrédulo.

Sobre a banda Pholhas

A banda Pholhas em sua formação original

Lógico que fui procurar na hora. Pois era uma banda que até então não me agradava sonoramente. Curiosidade mórbida, que na verdade se mostrou um achado.

Os Pholhas são uma banda paulistana que estão na ativa até hoje e tocam músicas em inglês e versões de outros artistas. Sua formação contava à época com Helio Santisteban (teclado), Paulo Fernandes (bateria), Oswaldo Malagutti (baixo) e Wagner “Bitão” Benatti (guitarra), com os quatro se revezando nos vocais.

Esse pessoal faz parte da geração de músicos brasileiros que cantavam em inglês e que todo o ouvinte de rádio da época, achavam que eram estrangeiros, quando na verdade Fábio Junior, Christian (da dupla com Ralf), o finado Jessé e mais uma infinidade de músicos brasileiros que inundavam as rádios brasileiras com o melhor da música internacional “made in Brazil”.

Depois de venderam milhares de cópias dos discos em inglês, os Pholhas passam por uma reestruturação em sua formação. Sai o tecladista e fundador Helio Santisteban que optou em encarar uma carreira solo, e em seu lugar entra Marinho Testoni, ex-Casa das Máquinas. E isto causou uma reviravolta na sonoridade da banda.

A partir da entrada de Marinho, eles abandonam as músicas em inglês para caírem de cabeça na psicodelia progressiva cantada em português. Bitão assume os vocais principais e a banda com a qualidade que sempre teve, divide-se nos backing vocals.

Após mudança na formação inicial, uma mudança na sonoridade

Sobre o álbum Pholhas

Bem produzido e com uma sonoridade absurdamente incrível, o disco acabou não fazendo a cabeça dos próprios músicos que esperavam ainda mais do resultado do processo de gravação. De instrumental rebuscado, pesado e extremamente técnico, mas sem soar pedante.

A banda criou uma obra que tinha tudo para virar um clássico do rock brasileiro, mas que por algum motivo inexplicável (estranheza do público, não aceitação das rádios, falta de divulgação da gravadora) não aconteceu. Poderia ter feito par com várias obras clássicas do cancioneiro nacional. Mas caiu na obscuridade e acabou sendo redescoberto graças ao garimpo de colecionadores e aficionados por esse tipo de obscuridade.

Capa do álbum Pholhas (1977)

Além da sonoridade, outro ponto alto desse disco são as letras, em português, que retratam um momento brasileiro sem abertura política e de costumes, e que qualquer interpretação dúbia poderiam ser censuradas. O pessoal do Pholhas retratou o cotidiano do jovem roqueiro brasileiro, suas agruras, seus desencantos, suas angústias de maneira simples. Mas que não só casou com o instrumental como te leva a uma reflexão da perda de uma simplicidade de outrora (isso em 1977, anacronismo à parte).

Vale a pena?

Por fazer uma obra tão diferente do que seu público estava acostumado a ouvir, o disco foi um fracasso de vendas (comparado a outros que venderam milhares de cópias) e hoje é objeto de culto pela sua qualidade e sonoridade, chegando a custar algumas centenas de reais as poucas cópias que ainda são encontradas no mercado.

Mas é um disco ousado, classudo e moderno, feito por grandes músicos em um momento de criatividade ímpar e que a partir de hoje ocupa o rol dos grandes clássicos do cancioneiro nacional (na visão desse que vos escreve), desde já, discoteca básica e indispensável.

Um disco irretocável. Baixe, grave, compre, roube, mas dê um jeito de ouvir esse discaço.

Logo menos tem mais.

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Publicado em:Disco da Semana,Entretenimento,Música

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